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O mundo físico da natureza está cheio de bondade espiritual

37. A fé católica sempre foi uma religião vigorosamente “física”. A Bíblia começa com um jardim e termina com um banquete. Deus criou o mundo e disse que era bom e ingressou na história. Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnou-se e tornou-se um de nós. Nos sacramentos, coisas materiais são consagradas e transformadas em sinais visíveis da graça. Os costumeiros pão e vinho, água, óleo e o toque das mãos humanas são modos tangíveis pelos quais a presença de Deus se torna efetiva e real.

38. Acreditamos nas obras materiais da caridade. Quando alimentamos os famintos, damos de beber a quem tem sede, vestimos o que está nu, abrigamos os estrangeiros, assistimos aos doentes, visitamos os encarcerados ou enterramos os mortos, verdadeiramente, servimos a Jesus (cf. Mt 25, 3540). Confiamos na bondade da criação de Deus (cf. Gn 1, 431). Essa confiança permeia a imaginação católica. Torna-se visível em nossa arte e arquitetura, na cadência das festas e jejuns do calendário litúrgico, na piedade popular e nos sacramentais.

A sexualidade masculina e feminina participa do propósito espiritual

39. A criação material tem um significado espiritual com consequências para o modo como vivemos como homem e mulher. Nossa sexualidade tem um propósito. Nossos corpos não são meros invólucros para a alma ou máquinas sensórias para o cérebro. Não são matéria-prima que possamos maltratar ou reprogramar à vontade. Para os cristãos, corpo e espírito estão profundamente integrados. Cada ser humano é uma unidade de corpo e alma. Santa Hildegarda de Bingen escreveu que “O corpo é, na verdade, o templo da alma, cooperando com a alma por meio dos sentidos como a roda de moinho é movida pela água.” O corpo tem uma dignidade inerente como parte da criação de Deus. É parte íntima de nossa identidade e destino eterno. Os dois sexos, literalmente, encarnam o desígnio divino de interdependência humana, de comunidade e de abertura à nova vida. Não podemos degradar ou maltratar o corpo sem infligir um custo ao espírito.

40. Por certo, nem sempre amamos como deveríamos. O sexo é um fator extremamente poderoso nos assuntos humanos – tanto para o bem quanto para o mal. Assim, a sexualidade usada de maneira incorreta ou desordenada sempre foi uma grande fonte de confusão e pecado. Desejo sexual e auto-compreensão podem ser complexos, mas não são auto-interpretáveis. Nossa identidade é revelada em Jesus e no plano de Deus para nossas vidas, não em autoafirmações decaídas.

41. O casamento existe porque a procriação e a comunhão, a biologia e a promessa divina, o natural e o sobrenatural, juntos, fundamentam o que é ser “humano”. O matrimónio existe porque descobrimos e aceitamos, e não porque inventamos ou renegociamos a vocação para a oferta de si mesmo que é algo intrínseco a ser criado, na aliança, homem e mulher. O matrimónio é uma criação de Deus, porque somos criaturas de Deus, e porque Deus criou homem e mulher para comungar com ele de sua aliança.

42. Nossa origem, com dois sexos diferentes e complementares, e a vocação ao amor, à comunhão e à vida são um único e mesmo momento. Nas palavras do papa Francisco: “Esta é a história do amor, a história da obra-prima da criação.”

43. Essa vocação ao amor, à comunhão e à vida, envolve todo o ser do homem e da mulher, corpo e alma. A pessoa humana é, simultaneamente, um ser físico e espiritual. O corpo, de certo modo, revela a pessoa. Consequentemente, a sexualidade humana nunca é simplesmente funcional. A diferença sexual, visível no corpo, favorece diretamente o caráter esponsal do corpo e a capacidade de amar da pessoa. No centro desse chamado a amar, está o chamado de Deus: “Sede fecundos e multiplicai-vos” (Gn 1, 28). A união esponsal dos cônjuges por intermédio do corpo também é, portanto, pela própria natureza, um chamado para viver como pai e mãe.

44. Por justo motivo percebemos júbilo nas palavras de Adão à primeira visão de Eva: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” (Gn 2, 23). O Catecismo da Igreja Católica observa que desde o início: “O homem descobre a mulher como um outro ‘eu’, da mesma humanidade”. Homem e mulher partilham de idêntica dignidade que provém de Deus, o Criador. No plano de Deus, semelhança e alteridade de homem e mulher coincidem na complementaridade sexual como masculino e feminino. Criados juntos (cf. Gn 1, 2627), homem e mulher são destinados um para o outro. A diferença sexual é uma advertência primordial de que somos feitos para doarmo-nos aos outros guiados pela virtude e pelo amor de Deus.

45. São João Paulo II muitas vezes falou sobre “o significado nupcial ou esponsal do corpo”. Fez ressoar o ensinamento do Concílio Vaticano II que a “união [entre homem e mulher] constitui a primeira forma de comunhão entre pessoas”. A diferença sexual, todavia, marca todos os relacionamentos, mesmo para os que ainda não são casados, já que ingressamos na vida como filho ou filha. Somos chamados a ser irmão ou irmã, não só para a nossa família, mas também para com os mais necessitados, para as comunidades e para a Igreja. Nossa identidade como homens e mulheres está na base de nossa vocação à paternidade ou à maternidade, natural ou espiritual. Dessa maneira, a diferença sexual tem importância universal.

46. Por ser um componente central de nossa identidade, a sexualidade não pode ser isolada do significado da pessoa humana. O sexo nunca é, simplesmente, um impulso físico ou emocional. Sempre encerra algo mais. O desejo sexual mostra que nunca somos autossuficientes. Almejamos uma amizade íntima com outrem. A relação sexual, não importa quão fortuita, nunca é apenas um ato biológico. De fato, a intimidade sexual é sempre, em certo sentido, conjugal, porque cria um laço humano, pouco importando o quanto seja intencional. Um ato conjugal propriamente ordenado nunca é simplesmente um ato erótico autónomo, voltado para si mesmo. Nossa sexualidade é pessoal e íntima, mas sempre tem uma dimensão e consequência sociais. Um matrimónio sacramental nunca é um bem privado, mas algo descoberto na relação com a aliança maior com Deus.

Temos uma ética sexual porque o sexo tem um significado espiritual

47. Duas vocações diferentes fazem justiça à convocação de ser homem e de ser mulher no plano de Deus: matrimónio e celibato. Ambas as disciplinas convergem na premissa comum de que a intimidade sexual entre homem e mulher é parte e desabrocha no contexto de uma aliança. O celibato é o caminho pelo qual as pessoas não casadas confirmam a verdade e a beleza do matrimónio. Ambos, celibato e matrimónio, se abstêm de ter relações sexuais que usem outras pessoas de modo condicional ou temporário. A autêntica abstinência do celibato, certamente, não é o desdém pelo sexo, mas, ao contrário, significa honrar o sexo por insistir que a intimidade sexual serve à promessa divina e é servida por esta. Ao viver à luz dessa aliança, os casais unidos em matrimónio e os celibatários oferecem, igualmente, a sexualidade à comunidade, para a criação de uma sociedade que não tem por base a concupiscência e a exploração.

48. Os três capítulos a seguir abordarão, em detalhes, o matrimónio (capítulos 4 e 5) e o celibato (capítulo 6). Ambas as modalidades, no entanto, estão baseadas no mandamento divino para viver a masculinidade e a feminilidade de modo generoso, fazendo dom de si. Esses dois estados de vida voltam o olhar para a promessa divina e experimentam, no fato da criação como homem e mulher, uma ocasião de alegria. A disciplina que se impõe ao amor – a disciplina dos que observam a aliança – às vezes é sentida como um fardo; todavia, essa disciplina honra e revela, precisamente, o verdadeiro significado do amor criado à imagem de Deus.

49. Nossa criação como homem e mulher à imagem de Deus é o motivo pelo qual todos somos chamados à virtude da castidade. A castidade é expressa de maneiras diferentes, caso sejamos casados ou não. Entretanto, para todos, a castidade encerra a recusa a utilizar o próprio corpo ou o corpo de outrem como objetos de consumo. A castidade é o hábito, sejamos casados ou não, de viver nossa sexualidade com dignidade e graças à luz dos mandamentos de Deus. Concupiscência é o oposto de castidade. A concupiscência inclui olhar para o próximo de modo utilitário, como se o corpo do outro existisse simplesmente para satisfazer um apetite. A verdadeira castidade “não despreza o corpo”, mas o vê nas dimensões plenas da pessoa. A castidade é um grande “sim” à verdade da humanidade criada à imagem de Deus e chamada para viver na aliança.

50. Compreendida dessa maneira, a castidade é o que todos são chamados a praticar: “Todo o batizado é chamado à castidade. [...] As pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal; as outras praticam a castidade na continência.” O amor matrimonial casto situa o eros no contexto do amor, do cuidado, da fidelidade e da abertura aos filhos. O celibato casto, pela continência, afirma que a intimidade sexual pertence ao contexto do amor, do cuidado e da fidelidade.

51. As raízes desse ensinamento cristão são antigas. Como escreveu Santo Ambrósio, no Século IV: “Existem três formas da virtude da castidade: uma, das esposas: outra, das viúvas; a terceira, da virgindade. Não louvamos uma com exclusão das outras. [...] É nisso que a disciplina da Igreja é rica.”

52. Saber como viver esse ensinamento concretamente, seja no matrimónio ou no celibato e nas circunstâncias difíceis dos dias de hoje, é a tarefa que nos servirá de guia na continuidade desta catequese.

53. Deus criou todo o mundo material por amor a nós. Tudo o que podemos ver e tocar, até mesmo nossos corpos femininos e masculinos, foi criado para a aliança com Deus. Nem sempre amamos como deveríamos, mas o amor exemplar de Deus nos protege e nos faz retornar às nossas devidas naturezas. Matrimónio e celibato são dois modos de estar juntos como homem e mulher à luz das promessas de Deus e, por isso, tanto o matrimónio quanto o celibato são considerados modos de vida castos.

Questões para partilha

  • Por que os católicos apreciam e valorizam tanto o mundo físico, tangível? Pense em alguma coisa bela, como a natureza, os corpos, a comida ou a arte – por que essas coisas são tão importantes na tradição católica?
  • Qual é o propósito da criação? O mundo físico é um livro em branco que somos livres para reger e explorar conforme nossos próprios desejos?
  • Descanso, comida, prazer e beleza são atraentes. Mas, às vezes, temos desejos e apetites profundos além daquilo que é bom para nós. Como sabermos quando um desejo é legítimo e bom? Como podemos cuidar e desfrutar da criação e de nosso corpo na vida diária?
  • Por que você acha que a prática católica inclui, tradicionalmente, festas e jejuns? Celibato e matrimónio?
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