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Virtude, amor e bondade nos ajudarão a cumprir a missão

54. O texto da 1Cor 13, 47 é uma escolha muito popular nos matrimónios cristãos: “O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo.”

55. O texto é belo. Tendo sido criados à imagem de Deus, amar dessa maneira está de acordo com nossa verdadeira natureza humana. No entanto, amar assim nunca é fácil. Requer humildade e paciência. Como disse recentemente o Papa Francisco: “A fé não é um refúgio para gente sem coragem”. O amor conjugal deve ser construído sobre algo mais que romance. O romance é maravilhoso, mas, sozinho, não sobrevive às preocupações e desafios que, inevitavelmente, afligem todo casal. Para ser o que somos – para amar como fomos criados para amar – certas virtudes são necessárias. Devemos estar abertos para essas virtudes, cultivá-las para cumprir nossa missão.

56. A “Teologia do Corpo” de São João Paulo II fala de uma espécie de “liberdade interior” e de “autodomínio” que os cônjuges precisam para

se tornarem, verdadeiramente, um dom para o outro. Uma pessoa muitíssimo atada a esperanças românticas, sem o fermento da liberdade interior e a capacidade de autossacrifício, perderá flexibilidade. Para viver a sacramentalidade do casamento e seguir a trilha das promessas divinas, maridos e mulheres necessitam da capacidade de transcender o ressentimento, de deixar de lado os direitos e precisam dar um passo rumo à generosidade. Sem essa liberdade e força interiores, problemas sérios seguramente surgirão, pois a vida coloca maridos e mulheres em situações que não são nada românticas.

57. Nenhum casamento baseado na mera atração sexual perdura. Parceiros eróticos, concentrados principalmente em se possuírem, não têm a habilidade interior para retroceder e dar espaço à autocrítica, à reconciliação e ao crescimento. A promessa conjugal de amar incondicionalmente, como Deus, ajuda a criar e proteger esse espaço vital. O compromisso sacramental de levar a cabo a obra do amor, mesmo quando é difícil amar, é um ingrediente essencial da aliança de Deus.

Amor verdadeiro gera compromisso

58. Nenhum ser mortal pode satisfazer todos os desejos. A verdadeira unidade conjugal está baseada na aliança de Deus, uma promessa que acolhe bem o desejo erótico, mas que, de modo cada vez mais profundo, compromete homem e mulher, um com o outro na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. O matrimónio cristão não é um teste romântico ou um arranjo condicional “até nova ordem”. O assim chamado casamento “à experiência”, como tentativa de viver de modo íntimo, mas hipoteticamente testar o relacionamento e prosseguir enquanto o romance estiver fluindo, é uma contradição em si. O Papa Francisco, recentemente, apresentou a seguinte ideia em um pronunciamento público: “Mas vós sabeis que o matrimónio é para a vida inteira?” “Ah, nós amamo-nos muito, mas... permaneceremos juntos enquanto o amor durar. Quando terminar, cada qual toma o seu rumo”. É o egoísmo: quando eu não sinto, interrompo o matrimónio e esqueço aquela “uma só carne” que não se pode dividir. É arriscado casar: é arriscado! É aquele egoísmo que nos ameaça, porque dentro de nós todos temos a possibilidade de uma dupla personalidade: aquela que diz: “Eu, livre, eu quero isto...”, e a outra que diz: “Eu, me, mim, comigo, para mim...” Sempre o egoísmo, que volta e não sabe abrir-se ao próximo.

59. Em resposta à gama de possíveis preocupações e medos, a Igreja indica Jesus, oferece os sacramentos e o apoio de seus próprios membros em mútuo companheirismo, confiante que para todos os desafios, o modo cristão de amar é possível e revelará nossas verdadeiras identidades. A Igreja promete a seus filhos e filhas que o Matrimónio é um sacramento, que o enlace e a prática do casamento católico tornam real, presente e eficaz a graça que o sustenta. Em resposta às nossas ansiedades, a Igreja insiste que prometer amar à maneira da aliança não é algo hipotético para santos idealizados como perfeitos, mas para um compromisso possível para os pecadores de hoje que estão no caminho. Como o Papa Francisco afirma: “No sacramento do Matrimónio há um desígnio deveras maravilhoso! E realiza-se na simplicidade e até na fragilidade da condição humana. Bem sabemos quantas dificuldades e provas enfrenta a vida de dois esposos... O importante é manter viva a união com Deus, que está na base do vínculo conjugal.”

60. Amar as pessoas desta forma não é algo a ser adiado, dizendo-se que se tentará quando se tiver organizado determinadas questões práticas. As questões práticas da vida são abordadas de forma adequada somente quando amamos desta forma. Amar nesses moldes não é um ideal ou um horizonte inalcançável, ao contrário, amar assim é algo que se escolhe no dia-a-dia; inicia-se no aqui e no agora, em meio às pressões diárias. Em outra ocasião, ensinou-nos o Papa Francisco: O matrimónio é também um trabalho para realizar em cada dia, poderia dizer um trabalho artesanal, uma obra de ourivesaria, uma vez que o marido tem a tarefa de fazer com que a sua esposa seja mais mulher, e a esposa tem o dever de fazer com que o marido seja mais homem. É preciso crescer também em humanidade, como homem e como mulher. É isto que deveis fazer entre vós. E isto chama-se crescer juntos. Isto não provém do ar! É o Senhor que o abençoa, mas deriva das vossas mãos, das vossas atitudes, do vosso estilo de vida, do modo como vos amais um ao outro. Deveis fazer-vos crescer um ao outro! Fazer com que o outro prospere sempre. O Papa Francisco reconhece que muitas pessoas podem ter receio desse desafio, que as pessoas podem até evitar o matrimónio em função do ceticismo ou do medo: Hoje em dia, muitas pessoas têm medo de fazer escolhas definitivas. [...] Parece impossível fazer escolhas para a vida inteira. [...] E esta mentalidade leva muitas pessoas que se preparam para o matrimónio a afirmar: “permaneçamos juntos, enquanto o amor durar”; e depois? Muitas saudações e até à vista! E assim termina o matrimónio. Mas o que entendemos por “amor”? Apenas um sentimento, uma condição psicofísica? Sem dúvida, se for assim, não será possível construir sobre ele algo de sólido. Ao contrário, se o amor for uma relação, então será uma realidade que cresce, e como exemplo até podemos dizer que se constrói como uma casa. E a casa constrói-se juntos, não sozinhos! [...] E não desejais alicerçá-la sobre a areia dos sentimentos que vão e voltam, mas sobre a rocha do amor autêntico, do amor que provém de Deus. [...] Por favor, não devemos deixar-nos dominar pela “cultura do provisório”! Esta cultura que hoje invade todos nós, esta cultura do provisório. Não pode ser assim! Portanto, como se cura este medo do “para sempre”? Cura-se dia após dia, confiando-se ao Senhor Jesus numa vida que se torna um caminho espiritual quotidiano, feito de passos, de pequenos passos, de passos de crescimento comum [...]

Bons casamentos são construídos sobre as virtudes, em especial a misericórdia e a castidade

61. Aqueles que desejam construir seu matrimónio sobre a rocha haverão de cultivar determinadas virtudes. O Catecismo da Igreja Católica afirma que no sacramento do matrimónio, Cristo habita com o casal e lhe ajuda a carregar sua cruz, “levantar-se depois da queda, perdoar-se mutuamente, carregar o fardo uns dos outros”. O Papa Francisco faz uma correlação de forma sucinta quando afirma que a vida em comum é uma arte que pode ser resumida em três palavras: por favor, obrigado e desculpa. Aprender a utilizar essas expressões pode ser difícil, mas, por outro lado, os casamentos podem se tornar muito penosos, de forma súbita, na falta delas.

62. Todas as virtudes cardeais (prudência, temperança, justiça, fortaleza) juntamente com as virtudes teologais (fé, esperança e amor) são importantíssimas e relevantes para que o matrimónio floresça. A semente em particular que provê o crescimento do matrimónio é a castidade. Precisamos da prática da liberdade interior para treinarmos nossos corações para o matrimónio; a práxis de percebermos nossa sexualidade no contexto da comunhão e da santidade individual um do outro. A castidade forma o bom hábito da abnegação e do autocontrole, que são pré-requisitos para tratar os outros com misericórdia.

63. A verdadeira união matrimonial jaz também na misericórdia, uma virtude que aprendemos de Jesus e observamos por toda a Aliança de Deus. Rezamos na liturgia: “Senhor, tende piedade”, e o Senhor nos concede sua misericórdia de modo que possamos ser misericordiosos.

64. A misericórdia cresce à medida que amamos como Cristo nos ensinou. A “graça do matrimónio cristão é um fruto da Cruz de Cristo, fonte de toda a vida cristã”. Os católicos creem que “é o próprio Cristo quem age” em cada um dos sete sacramentos, e que o Espírito Santo é como um fogo atuando, “transformando em vida divina” tudo o que alcança. No sacramento do Matrimónio, a aliança divina torna-se visível, a graça da aliança é comunicada e compartilhada. Neste sacramento, a aliança de Deus adentra nossos lares e torna-se o alicerce de nossas famílias.

65. O matrimónio cristão é uma questão de mútua oferta. É certo que há alternativas e outros modelos de “matrimónio” oferecidos à sociedade como um todo. Contudo à medida que o “matrimónio” torna-se uma espécie de premiação concedida a si mesmo e ao parceiro somente após uma longa sequência de experiências eróticas, ou quando este se situa no simples nível do contrato, ou seja, uma divisão de direitos entre indivíduos que procuram proteger sua autonomia, estamos semeando, desta forma, as sementes do desapontamento e do conflito. O eros se esvai e declina. E uma situação de litígio por direitos não é terreno fértil para a misericórdia.

66. Ao longo dos séculos, os seres humanos se casaram por inúmeras razões, algumas enobrecedoras e outras apenas pragmáticas. No matrimónio sacramental, a Igreja nos oferece abrigo, graça e um ensinamento diário sobre a natureza de Deus. Os compromissos matrimoniais no seio da Igreja convocam constantemente o esposo e a esposa a alcançar o melhor de suas naturezas e ainda situam o casamento num âmbito de relação aos outros sacramentos, em especial a Reconciliação e a Eucaristia. Esta economia sacramental pressupõe a reconciliação e a fidelidade como alicerces da vida conjugal, e, ao realizar isso, fomenta e protege a verdadeira comunhão entre os dois sexos. Para as pessoas nesta época pós-moderna, incertas no que e em quem podem confiar, tal empreendimento parece arriscado. Porém, a Igreja, que conhece o coração humano melhor do que nós mesmos, sabe também quem é Jesus: o Senhor digno de confiança. Sua forma de amar é indubitavelmente a única.

67. Jesus cria uma nova possibilidade para nós, uma nova visão do casamento fundamentada em sua aliança com a Igreja, uma vida conjugal alicerçada na solidez, na castidade e na misericórdia. Pode-se perceber como o matrimónio sacramental integra-se com a inteireza da vida cristã, pois o cultivar das virtudes do amor, da liberdade interior, da fidelidade, da misericórdia e do perdão é um projeto para toda a vida que se constrói sobre o hábito da oração, participação nos sacramentos e familiaridade com a história da Aliança divina. O Senhor sabe que nem todos os casamentos demonstram todas as virtudes a todo tempo, entretanto em sua misericórdia, Ele nos oferece a Penitência e a Eucaristia de modo que possamos crescer em nossa capacidade de amar como Jesus ama. Orientar nossas vidas a este modo requer de nós sacrifício, contudo, no final das contas, como é bela esta vida. Jesus é o caminho para a verdade e a alegria.

Questões para partilha

  • Qual é a espiritualidade católica do matrimónio? O que as famílias podem fazer para celebrar e proteger o matrimónio cristão?
  • Sendo o matrimónio um sacramento, quais as implicações para o namoro? Que qualidades deveríamos buscar num possível futuro cônjuge?
  • Como se relacionam os sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia com o sacramento do Matrimónio?
  • No Pai-nosso, dizemos “perdoai-nos a nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Você considera isso fácil ou difícil de realizar? Como o perdão possibilita as relações?
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