PASTORAL DA FAMÍLIA

PATRIARCADO DE LISBOA

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VII. Luz num mundo de trevas

VII. Luz num mundo de trevasEm seu ápice, a família é uma escola de amor, justiça, compaixão, perdão, respeito mútuo, paciência e humildade em meio a um mundo encoberto pelo egoísmo e o conflito. Neste sentido, as famílias ensinam o que significa ser humano. Contudo, são muitas as tentações que surgem procurando nos induzir a esquecer que o homem e a mulher foram criados para a aliança e a comunhão. A pobreza, a ostentação da riqueza, a pornografia, a contraceção, além dos erros de natureza filosófica e intelectual são exemplos de elementos que podem suscitar contextos de desafio ou ameaça para a vida saudável da família. A Igreja resiste a tudo isso em nome da proteção da família.

Os efeitos da queda original

113. Somos criaturas falhas. Nem sempre amamos como deveríamos. Mas se reconhecermos e nomearmos nossos pecados, podemos nos arrepender deles.

114. Pode-se verificar a marca de nossa natureza enfraquecida pelo pecado em nossas ações quotidianas: em nosso coração dividido, bem como nos obstáculos à virtude, tão corriqueiros no mundo. O “regime do pecado” “faz-se sentir nas relações entre o homem e a mulher. Sua união sempre foi ameaçada pela discórdia, por um espírito de dominação, pela infidelidade, pelo ciúme e por conflitos que podem chegar ao ódio e à rutura. Essa desordem pode manifestar-se de maneira mais ou menos grave e pode ser mais ou menos superada, segundo as culturas, as épocas e os indivíduos. Tais dificuldades, no entanto, parecem ter um caráter universal”.

115. O documento preparatório para o Sínodo Extraordinário dos Bispos de 2014, sobre os “Desafios Pastorais da Família no Contexto da Evangelização”, menciona uma vasta gama de questões globais: Entre as numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja, será suficiente recordar: os matrimónios mistos ou inter-religiosos; a família monoparental; a poligamia; os matrimónios combinados, com a consequente problemática do dote, por vezes entendido como preço de compra da mulher; o sistema das castas; a cultura do não comprometimento e da presumível instabilidade do vínculo; as formas de feminismo hostis à Igreja; os fenómenos migratórios e reformulação da própria ideia de família; o pluralismo relativista na noção de matrimónio; a influência dos meios de comunicação sobre a cultura popular na compreensão do matrimónio e da vida familiar; as tendências de pensamento subjacentes a propostas legislativas que desvalorizam a permanência e a fidelidade do pacto matrimonial; o difundir-se do fenómeno das mães de substituição (“barriga de aluguel”); e as novas interpretações dos direitos humanos.

Questões económicas e contextos

116. A pobreza e as dificuldades económicas debilitam o matrimónio e a vida familiar em todo o mundo. Certo dia, na Oração do Angelus, o Santo Padre, apontando para um grande cartaz no meio da multidão disse: Leio ali, escrito grande: “Os pobres não podem esperar”. É bonito! E isto faz-me pensar que Jesus nasceu numa manjedoura, não nasceu numa casa. Depois teve que fugir, ir ao Egito para salvar a vida. Por fim, voltou para a própria casa, em Nazaré. E penso hoje, também lendo aquela escrita, nas numerosas famílias sem casa, quer porque nunca a possuíram, quer porque a perderam por vários motivos. Família e casa caminham juntas. É muito difícil levar em frente uma família sem morar numa casa... Convido a todos — pessoas, entidades sociais, autoridades — a fazer todo o possível para que cada família possa ter uma casa.

117. Ao mesmo tempo, dados das ciências sociais mostram que os casamentos estáveis e as famílias auxiliam na superação da pobreza, da mesma forma que a pobreza age contra os casamentos estáveis e as famílias. Os casamentos bem alicerçados e as famílias geram esperança, e a esperança conduz a propósitos e a realizações. Esses dados sugerem o modo como a fé cristã vigorosa possui consequências práticas e espirituais. Uma das razões pelas quais a Igreja dá grande atenção às circunstâncias económicas em nossas vidas, bem como as de ordem espiritual, é auxiliar as famílias a quebrarem círculos viciosos e transformá-los em círculos virtuosos.

118. A última encíclica do Papa Bento XVI, Caritas in veritate, insiste na “forte ligação entre a ética da vida e a ética social”. O Papa Bento observou que “a família tem necessidade da casa, do emprego, ou do justo reconhecimento da atividade doméstica dos pais, da escola para os filhos, de assistência sanitária básica para todos”. Jesus preocupa-se com a pessoa integral. Ele mesmo conheceu a pobreza e veio de uma família que viveu como refugiada. Ele agora convoca sua Igreja para se levantar em solidariedade às famílias em situações semelhantes.

119. Em outras palavras, se dizemos que nos preocupamos com a família, precisamos cuidar dos pobres. Se cuidarmos dos pobres estaremos servindo à família.

120. A atual economia global, híper-capitalista, também prejudica a classe média e os ricos. A cultura de massa, por exemplo, mercantiliza o sexo. O marketing corporativo cria um apetite insaciável por novas experiências, um clima de contínuo perambular e insatisfeito desejo. A vida nas culturas do mercado moderno torna-se uma luta contra a cacofonia da alienação, do barulho, dos insaciáveis desejos, elementos estes que rompem a estabilidade da família e alimentam um sentimento de permissão. A vida numa perpétua situação de mercado pode nos fazer pensar que, se desejamos alguma coisa, se se está de acordo com isso e se há condições financeiras para tanto, então temos direito a ter. Esse sentimento de permissão é uma ilusão destrutiva, um tipo de escravidão aos apetites que enfraquece nossa liberdade para uma vida virtuosa. Nosso fracasso em acolher os limites, nossa insistência obstinada em satisfazer nossos impulsos abastece muitos problemas espirituais e materiais no mundo contemporâneo.

Por que a pornografia e a masturbação são moralmente erradas

121. O mercantilismo do sexo sempre comporta o mercantilismo das pessoas. A pornografia – frequentemente ligada e alimentada pela crueldade do tráfico humano – tornou-se pandémica, e não somente entre os homens, mas também em número ascendente entre as mulheres. Esta lucrativa indústria global pode invadir qualquer lar que tenha um computador ou TV a cabo. A pornografia catequiza seus consumidores para verem as outras pessoas como objetos para a satisfação de seus apetites.

122. Para todos nós, é realmente difícil a tarefa de aprender a paciência, a generosidade, a tolerância, a grandeza e outros aspetos do amor cruciforme. A pornografia torna a doação de nós mesmos aos outros e à aliança divina ainda mais penosa, até mesmo para o usuário casual. A masturbação é moralmente errónea por razões análogas. Quando um indivíduo “curte” ou justifica o uso da pornografia e da masturbação, ele ou ela suprime a capacidade de abnegação, de uma sexualidade madura e a intimidade genuína com o cônjuge. Não é de se espantar que a pornografia ocupe um papel preponderante na rutura de muitos casamentos na atualidade. A pornografia e a masturbação também podem agredir a vocação dos celibatários precisamente pelo dado ilusoriamente privado dessas práticas.

Por que o uso dos joões-ninguéns é moralmente errado?

123. De certa forma, os joões-ninguéns também nos levam a considerar o desejo sexual como uma prerrogativa para o uso. Permitem os usuários tratar o desejo pela intimidade sexual como autojustificante. Separando a procriação da comunhão, os joões-ninguéns obscurecem e, finalmente, prejudicam as razões do matrimónio.

124. Os casais que evitam ter filhos devem fazê-lo com boas intenções. Muitos casais experimentam e acreditam que o sexo com o uso de joões-ninguéns é essencial para manter os laços do matrimónio, ou que esta modalidade seja inofensiva, pois não haveria vítimas. Muitos casais estão tão acostumados aos joões-ninguéns que o ensinamento da Igreja pode parecer retrógrado.

125. Mas se um casal procura verdadeiramente a liberdade interior, o dom mútuo de si mesmo, e o amor sacrificial a que a aliança de Deus chama-nos, então é difícil imaginar em que sentido os joões-ninguéns seriam necessários e essenciais. A Igreja acredita que a insistência para o uso dos joões-ninguéns tem como origem vários mitos sobre o matrimónio que não são verdadeiros. Como o Papa Pio XII explicou: Há aqueles que alegariam que a felicidade no casamento está em proporção direta ao gozo recíproco nas relações conjugais. Não é bem assim. De fato, a felicidade no casamento está em proporção direta ao respeito mútuo dos cônjuges, mesmo em sua vida íntima.

126. Em outras palavras, ao pensar nos joões-ninguéns como necessários ou úteis estabelece-se uma premissa errada. Em seu fundamento, um matrimónio feliz – o matrimónio que persiste durante a vida – tem mais em comum com a força generosa e paciente do celibato do que com o chamado pelo Papa Pio XII de “hedonismo refinado”. Recentemente, o Papa Francisco referiu-se à Sagrada Família enfatizando as qualidades da generosidade e da liberdade interior que facilitam e possibilitam um bom matrimónio: José era um homem que ouvia sempre a voz de Deus, profundamente sensível ao seu desejo secreto, um homem atento às mensagens que lhe chegavam do fundo do coração e das alturas. Não se obstinou em perseguir aquele seu projeto de vida, não permitiu que o rancor lhe envenenasse a alma, mas esteve pronto para se pôr à disposição da novidade que, de forma desconcertante, se lhe apresentava. Era um homem bom. Não odiava. E assim, José tornou-se ainda mais livre e grande. Aceitando-se segundo o desígnio do Senhor, José encontra-se plenamente a si mesmo, para além de si. Esta sua liberdade de renunciar ao que é seu, à posse da sua própria existência, e esta sua plena disponibilidade interior à vontade de Deus, nos interpelam e nos mostram o caminho.

127. Os joões-ninguéns obscurecem a liberdade e a força interior. À medida que os desejos sexuais são tratados como prerrogativas ou desejos que não podem ficar sem satisfação imediata, manifesta-se a necessidade de se crescer na liberdade interior. Como uma “solução técnica” ao que é um problema moral, os joões-ninguéns escondem “a questão fundamental, que diz respeito ao sentido da sexualidade humana e à necessidade de um controle responsável, para que o seu exercício possa tornar-se expressão de amor pessoal.”

Os benefícios do planeamento natural da família

128. Com certeza a “paternidade responsável” inclui o discernimento sobre quando ter filhos. Sérias razões, emergindo das “condições físicas, económicas, psicológicas e sociais”, podem levar os cônjuges a decidirem não ter filhos por algum tempo definido ou indefinido.

129. Maridos e esposas católicos que se encontram nesta situação precisam de mestres, conselheiros e amigos que possam preparar e apoiar o casal no planeamento natural da família (PNF). Paróquias e dioceses devem fazer deste apoio uma prioridade pastoral e de fácil acesso. É realmente mais provável que o casal exerça o ensinamento católico se houver uma direção espiritual, instrução prática e amigos solidários. Leigos, padres e bispos, todos têm responsabilidade de criar estas condições facilitadoras.

130. Se um casal, com corações generosos, e depois de um período de oração e reflexão verdadeira, discernir que não seja o tempo na vida conjugal em que Deus os chama para ter mais filhos, então, por vezes, o planeamento natural da família poderá requerer deles a abstenção das relações sexuais. Praticando assim o PNF, o casal subordina ou oferece os desejos sexuais imediatos ao sentido maior da vocação de Deus na vida do casal. Esta subordinação da vontade e do desejo é uma das várias maneiras em que o PNF e os joões-ninguéns são tão diferentes um do outro: objetivamente e experiencialmente. O PNF é uma forma íntima e exigente, e, desta forma, potencialmente linda e intensa de seguir o Senhor no matrimónio.

131. O PNF é estabelecido sobre a beleza e a necessidade da intimidade sexual conjugal. Por depender da abstinência ocasional para espaçar os nascimentos de filhos, o PNF convoca os casais à comunicação e ao autodomínio. Como o vínculo matrimonial, o PNF modela e disciplina o desejo sexual. A ideia própria da monogamia pressupõe que a humanidade caída pode disciplinar os desejos e aprender a tratar um esposo com generosidade e fidelidade. Desta maneira, a abstinência periódica, requerida pelo PNF, ajuda a aprofundar e desenvolver um compromisso que as pessoas casadas já fizeram. Embora o PNF não garanta um matrimónio feliz, nem isente o casal dos sofrimentos normais do matrimónio, este é uma tentativa de construir uma casa sobre a rocha e não sobre a areia.

Os joões-ninguéns ampliam a confusão sobre as questões do matrimónio

132. Como a Igreja predisse há quase 50 anos, os joões-ninguéns não só arruínam os matrimónios, mas também possuem outros efeitos colaterais. O acesso extremamente fácil dos joões-ninguéns induz a que poucas pessoas tenham o hábito da abstinência e o do autodomínio sexual. Desta forma, os joões-ninguéns fizeram o celibato muito menos plausível para a sociedade moderna e, desta forma também fizeram com que o matrimónio e outros tipos de românticos casais parecessem virtualmente impossíveis. Quando isso acontece, toda a vida social de uma comunidade é distorcida. E, à medida que os joões-ninguéns diminuem a plausibilidade do celibato, contribuem à escassez de sacerdotes e religiosos jovens. Os joões-ninguéns também fazem o sexo fora do matrimónio (tanto o pré-matrimonial quanto o extra-matrimonial) parecer superficialmente mais plausíveis, como se a intimidade sexual pudesse existir sem consequências. E, certamente, muitos dos mesmos argumentos pelo sexo sem abertura à procriação, que procuram justificar os joões-ninguéns, também se aplicam a justificar o aborto permissivo – ainda mais horrendo e brutal.

133. Separando assim o sexo e a procriação, os joões-ninguéns encorajam uma cultura que supõe o matrimónio como um companheirismo emocional e erótico. Esta perspetiva reducionista e desordenada alimenta a confusão atual sobre a verdadeira natureza do matrimónio, tornando o divórcio mais corriqueiro e comum, como se o matrimónio fosse um contrato que pudesse ser quebrado e renegociado. Recentemente escreveu o Papa Francisco: A família atravessa uma crise cultural profunda, como todas as comunidades e vínculos sociais. [...] O matrimónio tende a ser visto como mera forma de gratificação afetiva, que se pode constituir de qualquer maneira e modificar-se de acordo com a sensibilidade de cada um. Mas a contribuição indispensável do matrimónio à sociedade supera o nível da afetividade e o das necessidades ocasionais do casal. Como ensinam os Bispos franceses, não provém do sentimento amoroso, efémero por definição, mas da profundidade do compromisso assumido pelos esposos que aceitam entrar numa união de vida total.

Por que a Igreja não apoia o denominado matrimónio entre pessoas do mesmo sexo?

134. A orientação do matrimónio como satisfação erótica ou emocional, a qual é um movimento facilitado pela separação entre sexo e procriação, corroborou a hipótese das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Em alguns países, atualmente, há articulações que visam redefinir o matrimónio como sendo qualquer relação de caráter sexual ou afetivo estabelecida entre dois adultos. Esta visão revista do matrimónio tem-se firmado onde o divórcio e os joões-ninguéns constituem uma prática estabelecida. Desta forma, a redefinição do matrimónio para incluir os do mesmo sexo surge, logo em seguida, como algo válido.

135. Com respeito à hipótese do matrimónio entre pessoas do mesmo sexo, como já bem se sabe, a Igreja se recusa a dar sua bênção ou sancioná-lo. Não se trata de um fechamento ou falta de reconhecimento da intensidade do amor e das amizades entre pessoas do mesmo sexo. Como deve estar claro neste ponto desta catequese, a Igreja Católica sustenta que todos são chamados a doar e receber amor. Amizades do mesmo sexo comprometidas, sacrificiais e castas devem ser apreciadas e estimadas. Visto que os católicos têm um compromisso ao amor, à hospitalidade, à interdependência e à atitude de “carregar os fardos uns dos outros”, a Igreja, em todos os níveis, quer apoiar e fomentar as oportunidades de amizade casta, sempre procurando a solidariedade para com aqueles que, por qualquer razão, não podem se casar.

136. A verdadeira amizade é uma vocação antiga e honorável. São Aelred de Rievaulx observou que o desejo por um amigo nasce do âmago da alma. Amigos verdadeiros produzem um “fruto” e uma “suavidade”, enquanto ajudam um ao outro a dar uma resposta a Deus e a viver o Evangelho. Quer se desenvolva entre pessoas do mesmo sexo ou do oposto, a amizade representa um grande benefício para todos e conduz à comunhão espiritual.”

137. Como provavelmente já deve ter ficado claro, quando os católicos falam de matrimónio, referem-se a algo distinto das outras relações de amor particularmente intensas, mesmo se esse amor é profundo, resiste penosamente e por um longo período. Uma intimidade afetiva intensa de longo prazo não é o suficiente para o matrimónio. O matrimónio, como de fato foi universalmente reconhecido até muito recentemente no Ocidente, é estabelecido nos deveres que emergem das possibilidades e desafios apresentados pelo potencial de procriação dado pela anatomia sexual diferenciada dos homens e das mulheres.

138. A Igreja convida os homens e as mulheres a verem em sua sexualidade a possibilidade de uma vocação. Alcançar a maturidade enquanto homem e mulher significa assumir determinadas questões para si: Como Deus me chama a integrar minha sexualidade em Seu plano para a minha vida? Criados à imagem de Deus, nosso destino é sempre a comunhão, o sacrifício, o serviço e o amor. A pergunta para todos nós é como doar os aspetos sexuais das nossas vidas no matrimónio ou na comunhão vivida através do celibato. Em nenhum dos casos, o nosso desejo erótico ou romântico é soberano ou autónomo. Seremos chamados inevitavelmente a fazermos sacrifícios que não escolheríamos se escrevêssemos os nossos próprios roteiros de vida.

O contexto filosófico, legal e político do matrimónio na contemporaneidade

139. Os debates sobre a redefinição do matrimónio, inclusive as questões do matrimónio entre pessoas do mesmo sexo, levantam questões legais e políticas. Na teoria política e na teologia, os católicos falam da família como uma instituição pré-política. Em outras palavras, a família é legalmente “anterior” à sociedade civil, à comunidade e ao Estado político, já que a família é “fundada diretamente na natureza”. A sociedade não inventou nem fundou a família; ao contrário, a família é a fundação da sociedade: “A família na qual se congregam as diferentes gerações que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social constitui, assim, o fundamento da sociedade.” Assim as autoridades públicas possuem a obrigação de proteger e servir à família.

140. Até recentemente, esta perspetiva da família era também amplamente aceitada pelos não católicos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, de 1948 insiste que “a família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado.” Contudo, haja vista que mais jurisdições repensam o matrimónio como uma questão de preferência individual, subtraindo qualquer conexão orgânica à diferença sexual e à procriação, e promovendo uma perspetiva contratual daquele, esse consenso desaparece. Atualmente, o Estado pretende cada vez mais inventar o matrimónio e redefini-lo segundo seu querer. Supostamente, a família já não constrói a sociedade e o Estado, ao contrário, o Estado agora presume supervisionar e autorizar a família.

141. Alguns legisladores pretendem então codificar esta inversão filosófica em novas leis matrimoniais. No lugar de acolher o matrimónio como uma instituição fundada na natureza, a nova perspetiva considera o matrimónio infinitamente plástico, subordinado e maleável à vontade política. Em prol da proteção das famílias, dos matrimónios e das crianças, a Igreja não tem outra opção a não ser resistir a este revisionismo.

142. Uma sociedade que acredita erroneamente ser o matrimónio sempre renegociável, percebido somente a partir de um acordo humano autorreferencial, verá o matrimónio unicamente como um contrato, como um acordo voluntário entre duas pessoas com direitos individuas. Mas estes meros contratos não são iguais ao matrimónio fundado sobre uma aliança de misericórdia. A lógica de tais contratos não é a lógica paulina de Efésios 5, em que o esposo e a esposa se amam ao modo da cruz. O raciocínio que subjaz estes contratos defetivos opõe-se ao dom do matrimónio como sacramento da aliança.

143. A Igreja é obrigada a resistir à propagação de falsas lógicas para o matrimónio. O Papa Francisco assim observou: Em repetidas ocasiões, ela (a Igreja) serviu de medianeira na solução de problemas que afetam a paz, a concórdia, o meio ambiente, a defesa da vida, os direitos humanos e civis, etc. E como é grande a contribuição das escolas e das universidades católicas no mundo inteiro! E é muito bom que assim seja. Mas, quando levantamos outras questões que suscitam menor acolhimento público, custa-nos a demonstrar que o fazemos por fidelidade às mesmas convicções sobre a dignidade da pessoa humana e do bem comum.

144. Como dissemos ao início desta catequese, todos os ensinamentos da Igreja sobre o matrimónio, a família e a sexualidade têm sua fonte em Jesus. A teologia moral católica é uma narrativa coerente capaz de satisfazer os questionamentos humanos mais profundos. Uma narrativa singular e unificante proveniente das convicções cristãs fundamentais sobre a criação divina e a aliança, sobre a queda original da humanidade e sobre a encarnação de Cristo, sua vida, crucifixão e ressurreição. Estes ensinamentos envolvem sacrifícios e sofrimentos para todos os que desejam ser discípulos de Jesus, porém eles também proporcionam novas oportunidades para a beleza e o florescer humano.

145. Quando a verdadeira natureza do matrimónio é debilitada ou compreendida de forma irrisória, a família torna-se enfraquecida. Quando a família está enfraquecida, todos nós tendemos a certo tipo de individualismo brutal. Perdemos de forma muito fácil o hábito da suavidade de Cristo e a disciplina de sua aliança. Quando a família está fortalecida – quando cria espaço para os esposos, esposas e seus filhos para realizar a arte da doação aos moldes da aliança divina – então a luz entra num mundo de trevas. Nesta luz, a verdadeira natureza da família pode ser vista. E é por isso que a Igreja resiste às sombras que ameaçam a família.

146. Todos nós experimentamos a queda. A desordem em cada coração humano possui um contexto e consequências sociais. A comunhão para a qual fomos criados é ameaçada por nossos desejos desregrados, por nossa situação financeira, pela pornografia, pela contraceção, pelo divórcio e por confusões legais ou intelectuais. Mas o amor é a nossa missão, e a Igreja procura uma alternativa para a vida social, uma comunidade cuja diretriz é a misericórdia de Jesus, sua generosidade, liberdade e fidelidade. Os diversos ministérios da Igreja promovem a cultura da vida, a ajuda aos pobres, o apoio ao planeamento natural da família e a articulação de uma filosofia do direito mais coerente. Quando os católicos resistem ao divórcio, ao casamento de pessoas do mesmo sexo ou às revisões indistintas do direito matrimonial, estes também assumem a responsabilidade de fomentar comunidades de amparo e amor.

Questões para partilha

  • Explique as conexões entre o cuidado da Igreja pelos pobres e seu ensinamento sobre sexo e castidade.
  • Qual é a diferença entre contraceção e planeamento natural da família?
  • Qual o denominador comum entre divórcio, contraceção e casamento entre pessoas do mesmo sexo?
  • Quais desafios à castidade existem em sua comunidade, e aonde as pessoas de sua paróquia podem ir para aprender sobre a perspetiva da Igreja? Como sua paróquia pode apoiar as pessoas que querem viver de acordo com os ensinamentos da Igreja?
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