PASTORAL DA FAMÍLIA

PATRIARCADO DE LISBOA

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50 anos da Humane vitae: uma boa notícia (Conclusão)

50 anos da Humane vitae: uma boa notícia (Conclusão)(Conclusão do texto publicado no Familiarmente de Novembro e Dezembro de 2018)

O génio de João Paulo II, na sequência da Humane vitae, foi explorar o significado da dimensão unitiva do ato sexual de uma forma inovadora – com o foco no seu significado interior tornando claro que as duas dimensões não podem ser separadas sem ferir gravemente o significado de cada uma delas: 

“no caso de haver uma separação artificial destes dois significados (unitivo e procriativos), no ato conjugal, realiza-se uma união corpórea, mas ela não corresponde à verdade interior nem à dignidade da comunhão pessoal: communio personarum. (…) Tal violação da ordem interior da comunhão conjugal, que aprofunda as suas raízes na ordem mesma da pessoa, constitui o mal essencial do ato contracetivo” . (TdC, 119-7)

·      E também: “A paternidade responsável e a regulação moralmente reta da fertilidade não é outro senão a releitura da «linguagem do corpo» na verdade. (…) O corpo «fala» não só com toda a externa expressão da masculinidade e da feminilidade, mas também com as estruturas internas do organismo, da reatividade somática e psicossomática. Tudo isto deve encontrar o lugar que lhe cabe naquela linguagem com que dialogam os cônjuges como pessoas chamadas à comunhão na «união dos corpos»”  (TdC 121-1)

Quando as pessoas entendem a verdade da dimensão unitiva das relações conjugais, rapidamente abraçam o ensinamento da Igreja sobre o planeamento familiar porque percebem que a contraceção fere o amor que eles tanto desejam. Como diz Karol Wojtyła em Amor e Responsabilidade, o verdadeiro amor implica a consciência da possibilidade da paternidade. Se esta possibilidade for deliberadamente retirada do ato conjugal a natureza da relação automaticamente é alterada e a mudança é no sentido da instrumentalização e não da união.

Não deixa de ser comovente a forma como o Papa Paulo VI chama a atenção para as dificuldades que prevê na aceitação da Humane vitae, mas também a forma como assegura que a Igreja está a cumprir a sua missão com esta encíclica: “A Igreja não foi a autora dessa lei e não pode, portanto, ser árbitra da mesma; mas, somente depositária e intérprete, sem nunca poder declarar lícito aquilo que o não é, pela sua íntima e imutável oposição ao verdadeiro bem comum do homem.” (HV, 18) e “A Igreja, de fato, não pode adotar para com os homens uma atitude diferente da do Redentor: conhece as suas fraquezas, tem compaixão das multidões, acolhe os pecadores, mas não pode renunciar a ensinar a lei que na realidade é própria de uma vida humana, restituída à sua verdade originária e conduzida pelo Espírito de Deus.” (HV, 19)

Com consciência destas dificuldades, o Papa Paulo VI dirige-se em particular à sociedade no sentido de criar um ambiente favorável à castidade (HV, 22); aos governantes no sentido de propor politicas de apoio à familia e à educação que respeitem a liberdade dos cidadãos (HV, 23); aos homens da ciência no sentido de se esforçarem por esclarecer mais profundamente, as diversas condições favoráveis a uma honesta regulação da procriação humana (HV, 24), aos sacerdotes no sentido de, em unidade e com confiança, ensinar a doutrina da Igreja sobre o matrimónio sem ambiguidades e como Cristo serem intransigentes com o mal e misericordiosos com o homem. (HV, 28) e finalmente aos Bispos, diz “trabalhai com afinco e sem tréguas na salvaguarda e na santificação do matrimónio, para que ele seja sempre e cada vez mais, vivido em toda a sua plenitude humana e cristã. Considerai esta missão como uma das vossas responsabilidades mais urgentes, na hora atual.” (HV, 30)

Estão a passar 50 anos da publicação da Humane vitae. O que temos nós feito e o que podemos fazer para que a boa nova nela contida seja verdadeiramente acolhida? Como podemos viver de modo a que a doutrina da Igreja seja visivelmente uma boa noticia para o mundo? Como podemos cuidar da familia e do amor humano de modo a que revelem na terra o amor das pessoas divinas, a própria essência do Deus que é amor?

Texto de Maria José Vilaça

 

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