PASTORAL DA FAMÍLIA

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Educar Com Uma Proposta | Familiarmente Dezembro 2019

EDUCAR COM UMA PROPOSTA

Talvez o maior desafio da educação dos filhos, principalmente na idade da adolescência e da juventude, venha do facto de o Amor só existir na liberdade. Não podemos obrigar os nossos filhos a amar, porque o Amor é precisamente a realização totalmente livre do bem! Queremos que eles façam o bem para serem felizes, mas rapidamente percebemos que tentar obrigá-los não funciona mesmo (e muitas vezes até funciona ao contrário).

Educar Com Uma Proposta | Familiarmente Dezembro 2019

 

 

Temos 7 filhos, dos 25 aos 14 anos, e não encontrámos até hoje nenhuma “receita” para a educação. É que cada filho é único, irrepetível, com a sua personalidade e a sua história, com as suas capacidades e as suas fraquezas… aliás, tal como nós! Mas se não encontrámos na nossa vida de pais educadores dois caminhos iguais, encontrámos algumas certezas que nos têm ajudado a percorrer cada um dos 7 caminhos diferentes.

Em primeiro lugar, saber que há uma rocha no nosso casamento, e essa rocha tem um nome: Cristo. A casa construída sobre a rocha: foi o texto do Evangelho que escolhemos para o nosso casamento. Os ventos e as tempestades surgem na educação dos filhos tal como surgem na nossa relação. Mais ou menos fortes em cada caminho, esses ventos e essas tempestades aparecem, mas a certeza da presença de Cristo é absolutamente fundamental. Rezar muito por cada um deles – para que Deus os ajude na escolha das suas opções; rezar muito por nós – para que Deus nos ilumine em cada passo de cada caminho; ir à missa, comungar, estarmos assim unidos a Cristo. Para nós isto não é uma ajuda: é o centro da educação dos nossos filhos.

Em segundo lugar, cuidar da nossa relação. Pela experiência vamos percebendo que a maneira como nos amamos um ao outro, como nos escutamos e conversamos, como nos perdoamos e apoiamos, como vivemos a alegria… vale mais do que mil palavras, mil discursos. Fortalecer o nosso amor é fundamental, pois o verdadeiro amor é sempre oblativo e acaba por transbordar para os outros. O amor que nos une, quando verdadeiramente sustentado em Cristo, é fonte de vida para os nossos filhos. A fecundidade do amor conjugal vai muito para além da procriação.

Em terceiro lugar, ouvir com atenção, acolher no coração e aconselhar com carinho. Cada um. Todos. Com muita simplicidade. Sem esquecer que saber perdoar é fundamental, assim como pedir-lhes desculpa. Se falamos mais do que ouvimos alguma coisa está mal… e pior ainda se temos um “Não!” na ponta da língua! Quando o ponto de partida não é uma boa escuta, quase sempre corre mal. E sim, é preciso tempo… mas não é a educação dos nossos filhos uma das tarefas mais importantes da nossa vida?

Por último, criar bons momentos de alegria em família. Coisas simples. Não é bom sinal quando passamos muito tempo a correr “atrás do prejuízo”, tentando reparar o que está mal. Temos de promover o bem, as coisas boas! Há dois anos pediram-nos para dar um testemunho em família através de um vídeo que gravámos e em que os nossos filhos foram também convidados a participar. O tema era “Educação, Liberdade e Sonho. Sobre a felicidade.” (Uma perspetiva a partir da Amoris Laetitia). Quando falámos com os nossos filhos, pedimos a cada um deles para que falasse um pouco sobre um tema que considerasse importante na realidade da nossa família (não demos nenhuma dica, não influenciámos nada). O Diogo (23 anos na altura) falou sobre a importância das refeições em família (pelo menos uma vez por semana estamos todos ao jantar) pelas conversas, vivências, lembranças, risos ou conversas mais sérias. Um tempo de crescimento como família. O Luís (20 anos) falou da pertença aos movimentos (pais nas Equipas de Nossa Senhora e filhos em Schoenstatt e na Paróquia) pelo que isso traz de enriquecimento e aprendizagem de cada um, numa caminhada em conjunto com amigos que partilham a mesma fé, completando a educação e vivência em casa. A Ana (18 anos) falou do “Calendário do Elogio”:

Um desafio que fazemos em família e que é, de forma rotativa, cada um realçar uma qualidade do outro. Numa semana o pai realça uma qualidade da mãe, a mãe do Diogo, o Diogo do Luís, o Luís da Ana, etc., e nas semanas seguintes vai rodando até todos terem elogiado todos. A Ana explicou como isso a marcou e como foi importante ter esta atenção às coisas boas, porque no dia a dia tendemos a focar mais as coisas más de cada um. O Tomás (16 anos) falou do bom que é pertencer a uma família numerosa, onde os irmãos se ajudam uns aos outros, e como isso é importante tanto para quem ajuda (porque cresce) como para quem é ajudado (porque recebe uma ajuda que muitas vezes é até a mais adequada). O João Paulo (14 anos) falou da partilha do tempo em família dizendo que isso é serviço aos outros: é isso que Jesus nos pede e é isso que nos dá alegria. Muito ligado ao avô, que já morreu, bebeu dele o que nós todos também bebemos toda a vida e que se resume muito bem neste texto de Tagore1 que ele trazia sempre na carteira: “Sonhei que a vida era alegria. Despertei e vi que a vida era serviço.

Servi e vi que o serviço era alegria!”. A Maria (12 anos) falou da importância do Natal e da Páscoa celebrados em família, tanto na nuclear como na alargada. A alegria de estar com os irmãos e com os primos, a festa que fazemos juntos traz ótimas recordações. Incluindo os docinhos da avó… A Rita (12 anos, gémea da Maria) falou das férias no Algarve em casa de um casal da nossa Equipa de casais. Podem imaginar 2 casais e 12 filhos numa casa com 3 quartos… a entreajuda nas refeições, os jogos ao ar livre, a praia, o gelado à noite…

As pequenas coisas que os nossos filhos descreveram são as que ficaram nos seus corações. Vem-nos à memória o filho pródigo, que saiu sem grandes discursos, e regressou porque guardava no seu coração as coisas boas da casa do pai. Não conseguimos obrigar os nossos filhos a amar, mas procuramos transmitir-lhes o nosso amor e proporcionar estas pequenas coisas que eles guardam nos seus corações. Que Deus nos ajude nestes caminhos.

 

Regiani e Tiago Líbano Monteiro

 

1 Rabindranath Tagore - Poeta indiano, 1861 - 1941

 


Ainda na rubrica do Familiarmente deste mês de Dezembro:

A Beleza e o Mistério que é Educar um Filho

Concurso de Presépios 2019

Vocação e Família - Na Minha Vida, Inseparáveis

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