PASTORAL DA FAMÍLIA

PATRIARCADO DE LISBOA

RSS Feed Facebook Subscreva a nossa Newsletter Contacte-nos

A alegria brota da gratidão

A alegria brota da gratidãoNo passado Domingo a minha avó fez 80 anos. Ela está atualmente numa residência sénior, na qual recebe o apoio especializado que necessita em função das suas debilidades físicas e que infelizmente não lhe podemos oferecer permanentemente em nossa casa. Contudo ao Domingo, é costume termos um almoço em família após a missa, e vamos buscá-la para passar a tarde connosco. Ela, que sempre foi muito faladora, agora passa a maior parte do tempo em silêncio, absorta nos seus pensamentos, mas escutando o que dizemos. No entanto, faz muito boa companhia e gosta muito de “mudar de ares” e sair do lar para vir a casa.

 

Como sofre de Alzheimer, nem sempre tem presente em que dia estamos e desta vez nem se lembrava ser o dia do seu aniversário. Mas lembramo-nos nós, e para o celebrar fizemos um bolo e resolvemos fazer um jogo em família, também com o propósito de estimular a sua memória. Utilizámos uns cartões com perguntas várias sobre geografia, provérbios, adivinhas, charadas, música ou gastronomia.

Ela é mestra em provérbios, e nessa a categoria, fosse a sua vez de responder ou não, a resposta saltava-lhe pronta, para grande regozijo de todos: mal se dizia “Mais vale um vizinho perto”, respondia ela prontamente “do que um irmão longe”. Na gastronomia, à pergunta sobre o que não pode faltar na açorda, exclamou com um rasgado sorriso: “pão”, o seu alimento favorito. Algumas charadas eram mais difíceis, mas houve uma de que gostou particularmente: “Estavam 7 homens num barco. O barco afundou-se e caíram ao mar. Mas só seis molharam o cabelo. Porquê?” A esta charada ela não soube responder, mas quando lhe dissemos: “Porque 1 era careca”, deu uma gargalhada. E quando se perguntava “quem é que tem um lagarto pintado na saia”? respondia ela a cantar “A saia da Carolina tem um lagarto pintado. Sim Carolina ó-i-ó-ai, sim Carolina ó-ai meu bem”. E nós juntávamo-nos a ela cantando esta modinha portuguesa.

Perante as respostas de que se ia lembrando, exclamou: “Epá, afinal esta velhinha ainda não está ultrapassada!”. A minha filha, de 4 anos, respondeu de pronto “ó avó, tu não estás nada ultrapassada, tu até sabes as canções que a Fernanda nos ensina no colégio”. Eu não respondi, mas não pude deixar de pensar como é importante este convívio e como a minha avó se sentiu bem por perceber que a sua cabeça ainda tem algo para dar. Para nós foi uma tarde de grande alegria, pelo convívio, pelo que aprendemos uns com os outros, pela gratidão que temos pelo bem-estar de quem amamos.

Senti que quando regressou ao lar, a minha avó ia satisfeita. Senti também que para a minha filha foi muito importante ouvir aquela sabedoria popular, pois aprende de forma alegre algumas noções de bom senso que tão importantes são para a vida em comunidade. E quando terminou o dia e fizemos a oração da noite em familia, a nossa filha rezou assim “Obrigado Jesus pelas histórias divertidas que hoje aprendi com a minha bisavó”. Assim, também eu dou graças da Deus pela minha família e pelo dom da vida de cada um deles.

Publicado na rubrica Familiarmente do Jornal Voz da Verdade de 9 de Março de 2014.

Share

Próximos eventos

No events