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Corresponsáveis na Esperança

Corresponsáveis na EsperançaMensagem dos Bispos de Portugal em tempo de Natal

Ocorre este Natal em circunstâncias dramáticas para muitas pessoas e famílias de Portugal, razão por que enviamos colectivamente esta mensagem natalícia aos cristãos e a todos os que se queiram deixar interpelar pela nossa voz. O Natal de Jesus Cristo, Deus feito homem, tem de celebrar-se em comunhão, afectiva e efectiva, com a vida dos homens e mulheres do nosso tempo.

A crise actual veio tornar ainda mais visíveis dramas sociais já antigos e provocar outros que pareciam de todo improváveis. A crise não só tornou mais patentes as grandes carências das pessoas e famílias pobres e excluídas, como aumentou, gravemente, o número das que, por via do desemprego, perderam os seus níveis de rendimento e o seu estatuto social, caindo em situações que, outrora, não se imaginavam possíveis. Por esse ou outros motivos, cresceu, a um nível preocupante, o número dos «novos pobres» forçados à humilhação de assim se exporem, uma situação que muitos têm dificuldade quase inultrapassável de superar.

1. Problemas e causas

Não pretendemos elencar aqui os diferentes problemas que afectam as populações do nosso país. Mas não podemos dispensar-nos de reflectir sobre as suas causas, sem prejuízo do atendimento diário de cada pessoa e família em situação de carência, reconhecendo que, na base das causas financeiras e económicas da crise, figura o menosprezo de valores e de princípios éticos fundamentais (cf. Bento XVI, «Caritas in Veritate», nn. 21, 53, 45 e 65).

Entre as causas mais visíveis, realçamos os poderosos interesses incontroláveis, nacionais e transnacionais, a falta de coragem e verdade governativas, os exagerados interesses individuais, a desregulação dos mercados, a circulação descontrolada de capitais, a competitividade desumana e sem limites, a cultura e a prática das desigualdades sociais, a insuficiência do diálogo e da concertação, a promoção do consumismo, a rejeição da sobriedade e da poupança. Se, por um lado, parece até que se pretende superar a crise sem intervir nas suas causas, por outro, muitas forças que pretendem essa intervenção quase se limitam à contestação sistemática da ordem vigente, sem formularem propostas consistentes e sem experimentarem, no concreto, as suas opções, tornando a governação do mundo e do país muito difícil.

2. Construção da esperança

No caminho inverso, o da construção da esperança, não podemos ignorar alguns avanços conseguidos ao longo dos séculos e, especialmente nas últimas décadas, destacamos, entre eles, a democracia, a generalização do acesso ao ensino, a legislação acerca da escolha livre da família no que toca à educação, a preocupação pela segurança interna, a cooperação no âmbito da União Europeia e na esfera internacional.

É evidente como vários sectores da sociedade têm contribuído, em maior ou menor grau, para os avanços conseguidos. Na perspectiva cristã, é legítimo afirmar que estamos diante de sinais da presença de Deus no mundo, com uma tríplice interpelação: o reconhecimento do bem que existe; o dizer não ao desperdício de tão valioso património; e a superação dos males que persistem. Apontamos alguns obstáculos à esperança mais graves e visíveis: injustiças e desigualdades gritantes, desemprego e frustrações pessoais e colectivas, pobreza e exclusão social que «bradam aos céus», manifestações de violência doméstica e colectiva, propensão difusa para o derrotismo, cultura do individualismo, falta de aplicação ética no domínio público.

Todos nos rebelamos contra estas realidades e somos convidados a assumir a nossa corresponsabilidade na família, no trabalho, na vida associativa, na participação política, na promoção do desenvolvimento, na valorização da escolaridade e da imprescindível liberdade de ensino, no lançamento de iniciativas económicas, ou outras, na criação de emprego, na formação humana e profissional, na acção solidária a favor das pessoas mais pobres e excluídas.

3. Corresponsabilidade universal

Corresponsabilidade na esperança é o desafio que nos interpela em cada dia. Sem deixar de apontar a singular responsabilidade dos governantes e dos que possuem cargos públicos, todos somos corresponsáveis, em maior ou menor grau, pelas causas da crise e pela sua superação. Na corresponsabilidade assumida constrói-se a esperança e abrem-se caminhos mais gratificantes às gerações futuras. Mesmo que, pela nossa situação ou momento histórico em que vivemos não houvesse motivo para esperar, somos instantemente convidados à esperança (cf. Bento XVI, «Spe Salvi», n. 35).

Todos os cidadãos e suas instituições, empresas e outras organizações são sujeitos activos e destinatários da corresponsabilidade; e esta configura-se mais justa se tiver a pessoa humana no centro das suas motivações. Para que assim aconteça efectivamente, deveria promover-se, a partir do nível local: o conhecimento de todas as situações de carência, a procura das respectivas soluções, mesmo provisórias enquanto não forem viáveis as mais definitivas, e a integração deste esforço numa estratégia nacional de desenvolvimento humano justo e solidário. Tal estratégia será tanto mais sólida quanto melhor conciliar a acção que parte da base com a que parte da cúpula.

A gravidade extrema da crise actual e a nossa corresponsabilidade perante ela tornam imperioso o empenhamento sério de todos, nomeadamente pelo diálogo social, pela negociação colectiva e pela concertação. Estamos convictos de que será através do diálogo, da negociação e da concertação que os diferentes interesses e pontos de vista procederão ao esclarecimento e à procura de soluções comuns. Quanto mais se avançar nesta procura de entendimentos e se preservar o respeito recíproco, mais se viabilizam a superação da crise e o desenvolvimento integral.

4. Compromisso solidário da Igreja

Convidamos os católicos e as comunidades eclesiais a um forte empenho nalgumas linhas de acção: a criação e o funcionamento dos grupos paroquiais de acção social, em colaboração com a Cáritas, as Conferências de S. Vicente de Paulo e outras instituições; o tratamento e difusão de estatísticas como fonte de conhecimento, de consciência social e de intervenção junto de entidades públicas e privadas; a promoção do diálogo social entre trabalhadores e empresários, e entre diferentes quadrantes políticos, procurando os consensos possíveis e testemunhando uma acção comum indispensável na sociedade, na economia, na cultura e na política; o aproveitamento do Fundo Social Solidário, de carácter emergente, recentemente aprovado pela Conferência Episcopal, que poderá funcionar como pólo dinamizador da acção conjunta a desenvolver.

A gravidade da situação actual, em determinados casos, não permite adiamentos. Torna-se urgente redescobrir o verdadeiro e concreto significado da caridade cristã numa variedade de propostas e intervenções imediatas de proximidade. Só suscitando e promovendo um novo «estilo de vida» não dominado pela pressão consumista mas orientado pela sobriedade, será possível partilhar, em termos institucionais e pessoais, respondendo a situações gravíssimas de pobreza envergonhada. Reconhecemos que, seguindo o estilo do Bom Samaritano, a caridade chega onde os mecanismos institucionais não penetram.

Todas as crises são desafio a ultrapassar os nossos comodismos em favor dos mais carenciados. Nesse sentido, a celebração do Ano Europeu do Voluntariado em 2011 é uma ocasião propícia para estreitar laços com os mais necessitados, em gestos e atitudes de serviço gratuito.

5. Esperança na verdade

Apesar de tudo, e por vezes contra tudo, a esperança é possível, desde que queiramos construí-la seriamente, porque, tal como Bento XVI afirmou relativamente à caridade, também a esperança só pode ser construída na verdade: na aceitação das responsabilidades individuais e colectivas que estão na origem da crise, na coerência dos comportamentos políticos, sociais e económicos indispensáveis à sua superação e na afirmação da solidariedade, cuja bandeira tantas vezes se desfralda em vão.

É a esperança, assim fundamentada, que é preciso construir, manter e divulgar. O tempo de Natal convida a este anúncio da corresponsabilidade de todos e cada um para uma nova consciência do bem comum como força e coragem para a promoção da dignidade humana de todos os Portugueses. Que os pobres experimentem a ternura da Igreja em Portugal, através de gestos concretos de partilha e solidariedade. A aceitação positiva das privações é fundamental para ultrapassarmos a presente crise com esperança, contribuindo para o bem de toda a comunidade.

Celebrar o Natal é reviver a confiança que Deus põe na pessoa humana, em solidariedade total, sem fronteiras entre o céu e a terra. «Cristo é a nossa esperança» (1 Tm 1,1). Festejar o Natal de Cristo é fortalecer e dar futuro à esperança na sociedade, nas famílias, nos locais de trabalho, no coração de cada homem e mulher.

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