PASTORAL DA FAMÍLIA

PATRIARCADO DE LISBOA

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Mensagem do Cardeal-Patriarca de Lisboa sobre o Referendo ao aborto

Mensagem do Cardeal-Patriarca de Lisboa sobre o Referendo ao abortoI – O que é que se pretende?

1. Aproxima-se a consulta popular em que o eleitorado vai ser convidado a dizer “sim” ou “não” a um alargamento legal do aborto, até às dez semanas de gravidez, tendo como motivo a justificá-lo apenas a vontade da mulher grávida. Embora a Igreja, porque é contra o aborto em todas as circunstâncias, não concorde com a Lei actualmente em vigor, ela apresenta razões para justificar o pedido da mulher: violação, mal-formação do feto, graves distúrbios psíquicos para a mãe. Agora pretende-se tornar legal que a mulher grávida peça o aborto só porque o quer.

 O que é que se pretende? Que motivos levam a esta ousadia legislativa? O Estado democrático, através das leis que aprova, procura o bem da comunidade nacional. A arte de legislar tem uma forte componente cultural: as leis aplicam à vida concreta da sociedade, em ordem a harmonizá-la, os valores fundamentais da cultura de um Povo. É daí que provém a exigência ética de todas as leis. Será que a nossa cultura deixou cair o valor humano universal que é a dignidade da vida humana e o dever do Estado de a defender e proteger? Será que esta intenção legislativa propõe um bem fundamental para todos os portugueses?

2. Os motivos que parecem justificar esta proposta legislativa, vamo-nos apercebendo deles nas diversas declarações de governantes, de partidários da lei, de movimentos a favor do “sim”.

* Parece ser a busca de uma solução para o drama do aborto clandestino. Que ele existe e é um drama, é uma realidade. Mas qual a sua dimensão? O várias vezes anunciado estudo sobre esta realidade nunca foi realizado. O cruzamento dos métodos anticonceptivos com os métodos abortivos e as soluções químicas para a interrupção da gravidez fizeram diminuir a realidade do aborto de “vão de escada”. Esta nova realidade traz a decisão de abortar para o campo da liberdade pessoal e da consciência e não é razão para esta alteração na Lei. Não quero, com o que acabo de dizer, negar a realidade do “aborto clandestino”. Penso só que era preciso tipificar melhor a realidade, nas suas dimensões evolutivas, antes de propor à decisão dos portugueses uma tão grave alteração legal. E será uma solução? Estudos feitos em países que seguiram este caminho, mostram que a legalização não resolveu significativamente o problema. Ao contrário, aumentaram os números globais de abortos.

* Pretende-se, depois, despenalizar a mulher que aborta. “Nem mais uma mulher para a cadeia” tornou-se “slogan”. Declarações que recentemente vi nos meios de comunicação social, dizem que, nos últimos trinta anos, nenhuma mulher foi presa por esse motivo. A afirmação surpreendeu-me. Houve, é certo, alguns julgamentos, e esses podemos contá-los, porque foram invariavelmente sublinhados com ruidosas manifestações dos movimentos “pró-aborto”. Mas também me consta terem sido dadas instruções à Polícia Judiciária para não ter entre as suas prioridades as investigações sobre o “crime” de aborto. Neste quadro, será urgente uma lei com tais problemas éticos? É notória a ambiguidade: não é possível “despenalizar” sem “legalizar”.

* Vi também apresentar como motivo, fazer alinhar Portugal entre os países mais progressistas da Europa, como se defender a vida fosse sinal de atraso cultural. Cautela Europa! Um continente a definhar por deficit de natalidade, a renunciar aos grandes valores da sua cultura, poderá ser a vítima do caminho que construir.

* Dizem outros que é um reconhecimento de um direito da mulher. “A mulher tem direito ao seu corpo”. Só que o feto é um corpo de outro ser humano, que a mulher mãe recebe no seu corpo, para o fazer crescer. O seio materno foi o primeiro berço de todos nós. É um corpo acolhido por outro corpo. Pergunto-me, sinceramente, pelo respeito que toda a mulher me merece, quantas mulheres-mães, mesmo as que passaram pelo drama do aborto, se pensarem um pouco, ouvindo o mais íntimo de si mesmas, serão capazes de fazer tal afirmação.

* A última razão que ouvi, e essa entristeceu-me particularmente, pois vinha de alguns católicos, que se querem distanciar da doutrina da Igreja: no aborto estão em questão duas vidas, a do feto e a da mãe. Estão a falar de aborto só quando a vida da mãe está em risco? E mesmo nessas circunstâncias é o caso em que a maternidade convida a correr riscos e apela ao heroísmo. Ou fazem equivaler a destruição da vida do feto ao incómodo de uma maternidade indesejada?

3. É notória a fragilidade de todos estes objectivos. O único que se afirma com a crueza da realidade é o drama do aborto clandestino do qual, como ficou dito, não se conhecem as fronteiras da realidade. Esta lei será uma solução? E, sobretudo, será uma solução legítima? Não o é, pois uma tal lei fere princípios éticos universais, é uma questão de civilização. Cultural e moralmente, o “Não” é a única resposta legítima.

 II – Uma questão de civilização

1. O facto de a Igreja Católica ser contra o aborto voluntário, em todas as circunstâncias, e devido à influência da doutrina da Igreja na definição dos parâmetros de moralidade, leva a opinião pública a considerar que esta disputa entre o “sim” e o “não” é um confronto entre a Igreja Católica e o resto da sociedade. A esta perspectiva dicotómica não escapam mesmo alguns defensores do “não”. Ora não me parece que esta seja a maneira mais correcta de situar o problema. Uma lei que permita a destruição da vida intra-uterina vai contra valores chave da nossa civilização. A defesa e a protecção da vida são um valor fundamental na estrutura de uma sociedade justa, onde o valor da vida humana é o principal fundamento da dimensão ética que deve inspirar toda a convivência em sociedade. Milénios de história e de evolução cultural, em que as religiões exerceram um papel significativo, levaram a humanidade a reconhecer, de forma progressiva, valores universais humanos, que não se impõem à sociedade por serem religiosos, mas por serem dados adquiridos da evolução cultural, na qual as religiões exerceram a sua influência específica.

O judeo-cristianismo, logo no decálogo da Lei de Moisés, confirmou estes valores universais. No que à vida diz respeito, exprimiu esse valor cultural no preceito “não matarás”. No cristianismo, este 5º mandamento da Lei de Deus, aprofunda-se com a exigência do amor fraterno. Esse é o principal mandamento da Lei: o amor de todo o seu semelhante. Como diz São João, “se alguém diz que ama a Deus e rejeita o seu irmão, é mentiroso” (1Jo. 4,20). Na moral católica, o valor universal do respeito pela vida, ganha a beleza e a exigência da caridade.

Uma lei que permita a destruição da vida humana é um atropelo de civilização, sinal de desvio preocupante no conjunto de valores éticos que são a base das sociedades humanistas, tão arduamente construídas ao longo de séculos. Os autores e defensores da proposta legislativa que vai ser referendada em 11 de Fevereiro próximo encontram justificação para esta deriva cultural na possível dúvida sobre o momento em que começa a vida humana no seio materno. É uma dúvida chocante, no actual estado dos conhecimentos científicos sobre a vida intra-uterina.

2. Neste quadro civilizacional, defender o aborto voluntário significa uma de duas atitudes: ou se duvida acerca do momento em que começa a vida humana, ou se tem uma atitude de desrespeito pela vida.

A questão do momento em que começa a vida humana é também ela uma atitude cultural. Na própria história do pensamento cristã, essa questão pôs-se. Alguns autores escolásticos, numa perspectiva dualista da união da alma e do corpo, defenderam que a infusão da alma se dava numa determinada etapa da evolução do feto. E nessa visão antropológica, só depois da infusão da alma se podia falar de vida humana. Semelhante a essa é, ainda hoje, a visão muçulmana da evolução do feto.

Essa questão foi completamente ultrapassada pela Teologia e pelo Magistério. A alma está presente desde o primeiro momento do corpo e exprime-se nele e através dele. A alma não habita o corpo, anima-o e humaniza-o. Será que os defensores do aborto são “escolásticos”, do ponto de vista antropológico? Não deixa de ser curioso!

Mas a palavra esclarecedora sobre esta questão é-nos dada pela ciência. A partir do embrião, toda a especificidade de cada ser humano está definida. É possível identificar, desde logo, o código genético e as etapas do crescimento estão caracterizadas. É uma vida humana, desde o início. Apoiar-se no carácter incompleto de cada etapa do crescimento, para justificar a interrupção desse mesmo crescimento, é incongruente. O homem é sempre um ser em construção e nenhuma imperfeição na realização de toda a sua potencialidade pode justificar a sua exclusão.

3. A atitude de desrespeito pela vida humana está, infelizmente, muito espalhada na sociedade. A violência, a exclusão, o assassinato indiscriminado, a própria pena de morte. Esta é uma luta em que a humanidade não pode esmorecer, pela defesa da dignidade e dos direitos fundamentais de todo o ser humano, o primeiro dos quais é o direito a viver e a ser protegido pela Lei. Passa pela educação, pelas leis justas e pela visão do homem e da sociedade que devem inspirar uma sociedade justa.

Esta é, de facto, uma questão de cultura e de civilização, donde, a partir do respeito pela vida, deve emergir o sentido da grandeza da maternidade.

III – Maternidade, grandeza e responsabilidade da mulher

1. Este período de esclarecimento das consciências em ordem à resposta a dar à pergunta que vai ser sujeita a referendo, sobre o alargamento legal do aborto voluntário, coincidiu com a Festa do Natal, nascimento de Jesus, Filho de Deus e da Virgem Maria. Maria, Mãe de Jesus, a “bendita entre todas as mulheres, porque é bendito o fruto do seu ventre”, convida-nos a meditar na grandeza da maternidade. O carácter misterioso do nascimento de Jesus, não retira a Maria a sua qualidade de Mulher-Mãe, em cujo ventre foi gerado e se desenvolveu o Homem Jesus de Nazaré. A mais sublime acção de Deus nas criaturas aconteceu no seio de Maria. Mas essa marca da acção de Deus nas criaturas, continua a acontecer sempre que uma mulher concebe e fica grávida, acolhendo no seu seio a mais maravilhosa obra da criação: o homem, outro homem, que prolonga o mistério da primeira criação. Cada mulher que concebe acolhe no seu seio o maravilhoso fruto do poder criador de Deus.

O facto da procriação humana se processar segundo dinamismos e leis precisos da natureza, hoje bastante conhecidos pela ciência, nada retira ao mistério da intervenção criadora de Deus, essa capacidade maravilhosa de comunicar a vida. Na maternidade, toda a mulher se auto-transcende, e toca a grandeza e a dignidade do mistério que está nela. Como em Maria, em toda a mulher a maternidade é uma missão, que não se exprime apenas na sua vontade, mas está profundamente impressa na sua natureza e no seu ser.

2. Tudo isto é simples e belo quando a maternidade é aceite e desejada, no seio da família radicada no amor. A maternidade é, então, um projecto de ambos os cônjuges, que se tornam pais, e pode elevá-los ao nível da contemplação e da beleza. Aliás, o sentido da paternidade só se encontra na maternidade, pois é no seio da mulher que a fecundidade do casal se exprime e desabrocha num horizonte mais vasto da fecundidade do seu amor. O marido-pai é o primeiro a contemplar, com enlevo, o mistério da vida. A mulher-mãe é a fonte do sentido da própria paternidade. E ambos se encontrarão, num único amor, ao acolher e ajudar a crescer, o filho que geraram, participando, assim, no poder criador de Deus.

Mas na realidade da vida, a maternidade é também fonte de exigência e de sofrimento, ocasião de queda e de fraqueza, desafio de coragem e generosidade. É desafio contínuo ao sacrifício e ao dom, e por isso ela é, para a mulher, caminho de amor. A missão de ser mãe é cenário de grandeza e de heroísmo, mas também de fraqueza e de pecado. E em todas as circunstâncias a fraqueza da mãe assume uma dramaticidade especial, porque está em causa a vida de uma criança. Em todo o percurso dessa missão, a mãe precisa de ser ajudada, pela família, pelos amigos, pela Igreja, pela sociedade. E ajudar a mãe significa sempre salvar a criança. Quando a mãe se torna incapaz ou se recusa a fazê-lo, a sociedade deve substituí-la nessa obrigação de salvar as crianças. Sempre assim foi, de diversas formas; é importante que assim continue a ser.

3. A dificuldade de uma maternidade não desejada pode ser a primeira dificuldade a ser ultrapassada pela mulher-mãe. As motivações do aborto não estão cientificamente estudadas. Elas vão desde a atitude egoísta de quem não está disposto a abraçar as dificuldades de criar um filho, ao medo dessas dificuldades, à pressão exercida, tantas vezes pelo pai da criança e pelo ambiente que rodeia a mulher. Para as mulheres que sentem essas dificuldades, o início da maternidade é momento de opção séria, de coragem e confiança, ou de desistência e de derrota, que tantas vezes atinge toda a sua vida futura. Nesse momento, a mulher precisa de ser ajudada, objectivamente ajudada, para que faça a opção da coragem e do respeito pela vida que se gerou no seu ventre. Esta coragem do início é, tantas vezes, largamente compensada, em amor e alegria.

Pensar que se ajuda a mulher, nessas circunstâncias, facilitando-lhe o aborto, é grave erro de perspectiva, pois facilita-se-lhe a derrota, não a ajudando à vitória sobre a fraqueza sentida. Uma lei facilitante torna-se numa tentação acrescida para uma mulher a sentir dificuldades em assumir a sua maternidade. Uma senhora escrevia-me há dias: “eu sei que matei um filho; mas nessa altura ninguém me ajudou”. Se queremos ajudar, não facilitemos a derrota, a mais triste na vida de uma mulher.

4. A exigência da maternidade faz parte da construção cultural do respeito pela mulher, pela sua dignidade e grandeza da sua generosidade. E é preciso reconhecer que a mulher se sentiu muitas vezes sozinha nesta luta pela sua dignidade. Neste aspecto houve grandes mudanças antropológicas e culturais nos últimos dois séculos. Recordo um estudo sobre a mulher francesa no séc. XVIII: casava cedo (15-16 anos), a esperança de vida era de 34 anos. Durante os cerca de 20 anos que durava o seu casamento, tinha, em média, 16 gravidezes, de que sobreviviam 4 filhos. A maternidade sofrida definia a vida da mulher. Tanta coisa mudou: a mulher conquistou uma outra inserção na sociedade, tem o mesmo direito à educação e ao trabalho, o planeamento familiar permite-lhe maior decisão sobre a sua maternidade. Esta deixou de ser a única dimensão a definir o ser mulher. Mas com isto também se acentuou a dimensão de projecto individual, onde o filho, se não foi desejado e decidido, pode aparecer como obstáculo.

Este é o novo quadro cultural em que é preciso situar a ajuda à mulher. Com toda a evolução do seu estatuto cultural e social, ajudá-la a não perder de vista que a sua vocação maternal é o centro da construção da sua dignidade. E isto é, também, um projecto de sociedade, porque o é de educação colectiva, que inclui a vivência responsável da sexualidade, a protecção da família, o esclarecimento para o exercício de um planeamento da fecundidade ao nível da dignidade do amor e da pessoa humana.

Que ninguém se iluda: facilitar o aborto não é o caminho para construir uma cultura de respeito pela dignidade da mulher. Dizer “não” ao aborto é dizer “sim” à dignidade da mulher, pois é ela, mais uma vez, que carrega a tristeza de ser “culpada” e “vítima”.

IV – As verdadeiras soluções

1. Ao afirmarmos que a legalização do aborto não é a solução, nem legítima, nem eficaz, para enfrentar o drama do aborto clandestino, nem a resposta a dar às mulheres grávidas, que enfrentam com dificuldade a maternidade, aceitamos que nos perguntem: quais são, então, as verdadeiras soluções? Devemos procurá-las nos grandes valores da civilização cristã e de uma sociedade justa e humanista, que ponha os valores acima dos interesses.

2. O primeiro desses valores é o amor fraterno, que exige o domínio dos egoísmos individualistas e a generosidade para ajudar os outros, sobretudo os que enfrentam problemas e necessidades graves. A solidariedade, que no ideal cristão ganha a densidade da caridade, é o dinamismo fundamental da construção da comunidade e de uma sociedade solidária.

Num estudo recente, feito pela Universidade Católica Portuguesa, à pergunta dirigida às mulheres, se, num caso de maternidade difícil, optariam pelo aborto ou por aceitar a ajuda para poder levar a termo a sua maternidade, 76% das inquiridas responderam que, se fossem ajudadas, não recorreriam ao aborto. Este é um desafio feito ao Estado, à sociedade e também à Igreja. Temos de encontrar soluções positivas, na linha da solidariedade e da ajuda fraterna. É preciso organizar uma rede de apoio, discreta mas eficaz, de modo que toda a mulher a quem se coloque a tentação de recorrer ao aborto, saiba onde e a quem poderá recorrer, onde seja salvaguardada a sua intimidade e lhe seja garantida a ajuda de que precisa: espiritual, psicológica e material. Para nós cristãos, não passará também por aqui a tal “fantasia da caridade”?

3. Uma outra ordem de valores sobre a qual se pode construir uma solução, situa-se no âmbito da educação. A educação deve propor um quadro de compreensão da vida humana, dos instintos à liberdade, que abra para a generosidade e para a responsabilidade. Conceber o exercício da liberdade numa perspectiva individualista, em que cada um pode fazer tudo o que quer e lhe apetece, não leva nem ao crescimento da pessoa, nem à edificação de uma sociedade justa e solidária. A sociedade fica confrontada com a necessidade de resolver, de forma pragmática e eficaz, os percalços e os problemas criados por uma liberdade individual sem responsabilidade. É assim nos acidentes de viação, nas agressões contra o ambiente, no abandono e abuso de crianças, no aborto.

O exercício individualista da liberdade origina uma sociedade permissiva. O Estado gasta uma parte significativa das suas capacidades e energias a corrigir abusos da liberdade, e as leis que enquadram essa busca de soluções tendem a ser pragmáticas, não se enquadrando nos valores fundamentais de uma cultura que situe e motive a liberdade individual. Isso é tarefa da educação.

O caso concreto do aborto toca num aspecto fundamental: a educação para a sexualidade, generosa e responsável, que encontra no amor o contexto positivo do seu sentido. Enquanto o ambiente for o de cada um fazer o que lhe apetece, o uso da sexualidade levará, cada vez mais, ao desrespeito da pessoa humana de que resulta: a violência familiar, o abuso de crianças, a sida, a utilização da mulher como objecto, os percalços indesejáveis na adolescência, o aborto. Acordemos todo para uma educação que promova a dignidade da pessoa humana, e esteja à altura da civilização que herdámos.

Está na ordem do dia a equação do que deverá ser a educação sexual nas escolas. É bem-vinda e necessária. Mas se não se enquadrar nesta visão generosa da pessoa humana, ela poderá gerar mais permissivismo, mais violência, mais problemas. Um aspecto delicado é a educação para uma sadia regulação da própria fecundidade. A doutrina da Igreja, a este respeito, baseia-se no princípio da fecundidade responsável e generosa, no quadro do ideal cristão da castidade, que desafia os cristãos a viverem a sua sexualidade como experiência de amor generoso, no quadro da família, potenciada com a graça própria do sacramento do matrimónio. O não sancionamento ético, por parte da Igreja, de todos os métodos de regulação da fecundidade, não pode ser usado como argumento a favor do aborto. Eles dizem respeito à exigência do amor casto, caminho de santidade, situando-se no âmbito da consciência da pessoa, homem e mulher, não comprometendo a vida de outro ser humano, como no caso do aborto. São mandamentos diferentes na Lei de Deus: guardarás castidade é um mandamento, que é desafio para a vivência da própria sexualidade; e “não matarás”, que é exigência radical de respeito pela vida dos outros. Em termos religiosos ou simplesmente culturais, não haverá verdadeira educação sexual se não abrir para a perspectiva da castidade, concebida como vivência generosa e responsável da própria sexualidade.

Este é o quadro cultural em que se construirão soluções, não apenas para o problema do aborto, mas para a estabilidade do casamento, para os desregramentos que impedem uma vida sadia e para a erradicação de todas as formas de violência que têm a sua origem numa sexualidade desregrada e egoísta. Durante toda a vida, a sexualidade tem de ser expressão de vida e caminho de felicidade.

V – A dignidade da consciência

1. Ao sermos consultados sobre uma questão tão delicada como é a legalização do aborto, a resposta é pessoal e livre, empenhativa da própria consciência. Quanto mais grave é a questão, maior é a responsabilidade da consciência. É como se dependesse de cada um de nós permitir ou proibir a legalização do aborto. São momentos em que a responsabilidade da liberdade é enorme, pois cada um torna-se corresponsável da decisão que vier a ser tomada.

Todos parecem estar de acordo que esta é uma questão de consciência, embora na maneira como o afirmam, nem sempre transpareça o sentido da sua dignidade. A consciência é o santuário mais íntimo da pessoa humana, expressão máxima da liberdade e da capacidade de dar sentido à própria existência, onde se afere o que é bem e o que é mal, onde se adopta o sentido radical da vida, onde se tomam as opções que a guiam e comprometem.

A consciência é o encontro das mais nobres faculdades humanas: a inteligência, a vontade, a liberdade. Por isso, ela tem de ser iluminada pela verdade, sustentada pela capacidade de decisão e exprimir-se livremente. O exercício da liberdade deveria ser sempre uma opção de consciência.

Não se pode violentar a consciência, pressionando-a, iludindo-a com falsas verdades, desviando-a do essencial da sua responsabilidade. Violentar a consciência é o mais grave atropelo da dignidade da pessoa humana.

2. Dada a sua dignidade e responsabilidade, a consciência precisa de ser iluminada pela verdade. Formar a própria consciência é sempre, mas sobretudo nas questões mais graves, procurar a luz da verdade. A consciência do cristão precisa de ser iluminada, não apenas pela luz natural, mas pela Palavra de Deus e pelo ensinamento da Igreja, coerente e unânime ao longo de uma longa tradição. Só a luz da verdade indica com clareza o caminho a seguir e a decisão a tomar.

Neste caso concreto é preciso escutar o essencial dessa mensagem: toda a vida é um dom de Deus, só Deus é Senhor da vida, nenhuma decisão humana contra a vida é legítima e honesta. Este respeito pela vida radicaliza-se no mandamento novo do amor: amai-vos uns aos outros. Só no amor fraterno a consciência atinge a plenitude da sua dignidade. Isso aliás está expresso no quinto mandamento da Lei de Deus: “Não matarás nem causarás dano, a ti mesmo, ou ao teu próximo”. Ninguém pode fazer mal ao seu semelhante.

Nem todos são capazes de acolher a luz da Palavra de Deus, que supõe a fé. Mas no caso do respeito pela vida, esta Palavra está impressa no coração de cada homem, é uma lei natural, que é parte constitutiva da dignidade do ser humano e que iluminará a consciência, se esta não for perturbada com mentiras ou meias verdades.

3. Situações como esta, em que uma comunidade inteira é convidada, ao mesmo tempo, a tomar uma decisão de consciência das mais empenhativas da liberdade humana, não são frequentes, penso mesmo que devem ser excepcionais, para não se tornarem ilegítimas. Pedir aos portugueses que, todos ao mesmo tempo, tomem uma decisão de tal gravidade, é muito mais que o vulgar exercício da democracia, em si mesma, como sistema político, orientada para a gestão da “coisa pública”. Não se pode perguntar, repetidamente, aos portugueses se aceitam a legalização do aborto, ao sabor dos ritmos políticos.

4. Neste tempo de esclarecimento, todos se devem confrontar com a verdade acerca da vida desde o seu início. Escutem, antes de mais, a voz íntima do seu coração, tantas vezes abafada pelos afectos e pelo barulho feito à volta desta questão. Escutem o testemunho da ciência, de médicos e psicólogos que nos têm vindo a proclamar a beleza da vida, desde o seu início, e dos traumas humanos provocados nas mulheres que abortam. Escutem o testemunho comovido de mulheres que abortaram e a alegria já manifestada por aquelas que venceram essa tentação e sentem hoje a alegria do filho que deixaram nascer. Escutemos, sobretudo, a Palavra de Deus e a voz da Igreja, que tem a doutrina que afirma, não por contradição, mas na fidelidade à verdade fundamental sobre a vida e sobre o homem. A defesa desta verdade, a Igreja fá-la por fidelidade, tantas vezes partilhando a dor de quem sofre este drama, e que ela toca ao vivo no mais discreto do seu ministério.

Nesta abertura à verdade que ilumina a nossa consciência, temos de nos defender de alguns obstáculos: da pressão sobre nós exercida por visões ideológico-partidárias e por movimentos de opinião. Mas temos, sobretudo, de nos defender de meias verdades e, sobretudo, das inverdades que podem surgir no calor da campanha em favor da opção que se deseja. Antes da responsabilidade do voto, cada um de nós tem, neste momento, a responsabilidade de procurar a verdade, pois só ela nos iluminará. E isso faz-se escutando os outros, esclarecendo dúvidas, debatendo perspectivas.

5. No dia 11 de Fevereiro próximo, na solidão de um voto, cada um de nós estará sozinho com a sua consciência, tornando-se corresponsável de uma decisão grave para a vida de pessoas e para a sociedade como um todo. O momento do voto não é comparável àquele em que uma mulher, também sozinha, tem de tomar a decisão de abortar ou não. Aí a decisão é envolta em drama, diz respeito a uma vida concreta, a que tem no seu seio, e aí joga a sua dignidade e o seu futuro. Mas a nossa decisão tem também a densidade de decidir do destino de muitos seres humanos e da grandeza e dignidade da sociedade que somos. Transformar a possibilidade do aborto num direito adquirido, tem consequências de civilização.

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