PASTORAL DA FAMÍLIA

PATRIARCADO DE LISBOA

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«Aprende, que eu não duro sempre»

«Aprende, que eu não duro sempre»Falar dos idosos na família é só por si um gesto de carinho, dando valor ao seu saber partilhado e à generosidade amorosa que deles irradia.

Educar, hoje, é diferente. Claro que teria de ser diferente, pois a alteração de comportamentos sempre existiu e pode ser bem constatada ao longo de inúmeros apontamentos históricos. Mas uma coisa é certa: é com os mais velhos que aprendemos todos os gestos e atitudes que formam o nosso carácter.

Todos, certamente, reconheceremos que fomos educados com o exemplo e, como tal, assumimos que educar alguém é ensiná-lo a fazer bom uso da liberdade e a ser responsável pelos seus atos. Mas, para saber agir, é necessário aprender a avaliar e a distinguir os vários caminhos ou opções de vida. E isso só se consegue com muito diálogo. Com mais tempo para a escuta e partilha de ideias que desenvolvam a capacidade de raciocínio e estimulem o discernimento.

Os desafios da sociedade atual, marcada pela dispersão que acontece sobretudo no ambiente urbano, retiram muito do tempo necessário para o diálogo ou simplesmente para a escuta das aventuras ou dissabores dos mais novos. E aqui é fundamental o papel dos idosos da família para um equilibrado desenvolvimento da personalidade dos “pequenotes”.

Certamente que todos conhecemos de perto a expressão “Aprende, que eu não duro sempre!”. Esta frase simples é escutada com um misto de novidade e deslumbramento pelo saber partilhado com os mais velhos.

Daqui, poderíamos partir para um jogo em família, que consiste em estimular na criança a capacidade de avaliar o dia que termina e anotar apenas uma coisa que tenha sido aprendida nesse dia. É garantido que esse bloco-notas, ou meras folhas em forma de “fichas”, serão muito apreciadas mais tarde, relembrando os momentos de convívio e experiências que cada um tenha feito com os seus pais, com os seus avós ou com aquela tia-avó que nos enchia de beijos, sempre que a visitávamos em sua casa.

Para as famílias onde haja crianças sequiosas de aprender coisas novas, que possam conduzir a aventuras, recordo o empenho que os nossos avós colocavam na figura do “anjo da guarda”. E seria bom recuperar tal empenho, que tinha como pano de fundo a certeza de que os “anjos da guarda” foram chamados por Deus para colaborar na resolução de um importante problema: criar seres perfeitos.

Naqueles tempos – e os mais idosos podem atestá-lo – criar seres perfeitos não pressupunha que aos sete ou oito anos de idade a criança falasse francês ou inglês, tivesse aulas de música e natação, ou ainda um desporto de grupo, a par de um horário intenso de aulas. Até porque nenhum de nós é um ser completo, um ser perfeito. Mas também nenhum de nós é uma ilha, uma realidade auto-suficiente.

Juntar as gerações numa partilha de experiências – “Avô, conta-me como foi … “ – tem uma forte razão de ser: juntos, temos mais entusiasmo e mais coragem para concretizar os projetos que Deus colocou na nossa vida. Reconhecemos as nossas limitações como seres inacabados, mas sabemos, tranquilamente, que estamos num processo de criação na força do Espírito Santo.

São João Paulo II deixou-nos um magnífico documento para a Família, a Familiaris Consortio que, no seu nº 60, refere “… a família cristã transmite a fé, quando os pais ensinam os seus filhos a rezar, rezam com eles e louvam a Deus como Pai.”

“Ó avó, essa oração é tão bonita!”

“Aprende, que eu não duro sempre!”

Publicado na rubrica Familiarmente do Jornal Voz da Verdade de 11 de Maio de 2014.