PASTORAL DA FAMÍLIA

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Matrimónio é comunhão de vida

Matrimónio é comunhão de vidaUma breve apresentação sobre a renovação da visão sobre o matrimónio através do Concílio Vaticano II com a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Actual (Gaudium et Spes)

Consciente que a teologia é um saber que dialoga com outros saberes para um melhor conhecimento do homem e da sociedade, o CVII convidou à renovação da teologia moral mais nutrida pelo Evangelho e suportada pelos vários ramos do saber. É neste contexto que surgem os números 47 a 52 da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Actual (GS), números que convidamos à leitura. Este texto conciliar aborda o sacramento do matrimónio, manifestando uma nova visão na qual torna prevalecente a sua compreensão enquanto comunhão de amor.

O concílio apresenta o matrimónio como uma aliança de amor e de fidelidade, “constituído à imagem da sua própria união [de Cristo] com a Igreja” (GS 48). É portanto a partir desta analogia entre o matrimónio e a Nova Aliança de Cristo que se definem as características do matrimónio. Como tal, assim como a entrega de Cristo pela Igreja é doação plena, fecunda e indissolúvel, também no sacramento do matrimónio se encontram essas características. Deste modo, situa na unidade de amor e não no dom dos filhos a base da fidelidade e unidade indissociável do matrimónio, pelo que é no amor que se encontra a raiz da qual se espera que brote a fecundidade do matrimónio.

Ultrapassa-se a anterior perspetiva do fim primário e fim secundário, afirmando vários bens e fins do matrimónio, todos de máxima importância e todos concorrentes para “o bem-estar temporal e eterno dos conjugues e dos filhos” (GS 48). Neste sentido é também dada relevância ao amor conjugal, contexto no qual é integrada a dimensão da sexualidade. Os atos sexuais, que correspondem a uma entrega livre e recíproca dos conjugues, são atos nobres e dignos, que fomentam o amor conjugal. Neles se dá uma entrega da pessoa na sua unidade de corpo e alma, pelos quais se unem duas pessoas. Assim se afirma que a relação conjugal é um bem em si, que expressa o amor mútuo do casal e promove a união de pessoas. Como tal, a sexualidade humana supera e muito a sexualidade animal.

O documento afirma ainda que os conjugues são cooperadores e intérpretes na ação criadora de Deus, no que se encontra subjacente a noção de paternidade responsável. Conscientes desta cooperação, os casais cristãos desempenharão o seu ministério com responsabilidade, atendendo ao próprio bem e dos filhos (nascidos ou por nascer), bem como ao bem da sociedade, da família e da Igreja. Assim, compete ao casal tomar a sua decisão diante de Deus, recorrendo aos critérios da justa regulação da natalidade, que são tirados da natureza da pessoa e dos seus atos e não são definidos como normas retiradas do meramente biológico. Distinguindo as dimensões unitiva e procriativa, o Concílio diz-nos ainda que podendo não enfrentar condições favoráveis à procriação, o casal deve ter em atenção que a abstinência prolongada não é boa, pelo facto de tal ameaçar o bem da fidelidade e da comunhão conjugal. Como tal, afirma que “a própria natureza da aliança indissolúvel entre as pessoas e o bem da prole exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade” (GS 50).

texto de Nuno Fortes, publicado na rubrica Familiarmente do Jornal Voz da Verdade de 11 de Janeiro de 2015

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