PASTORAL DA FAMÍLIA

PATRIARCADO DE LISBOA

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Conta-me uma estória

Conta-me uma estória− Conta, avô!
− O quê, filha?
− Uma história de quando eras pequenino e vivias em Santa Cristina.
− Deixa cá ver… Aqui vai: Um dia a minha mãe…

− Ó Madrinha Jaquina, madrinha! A nha mãe manda pedir uma chícara de açúcar, se faz favor…
− Atão, ó Alberto, vai haver festa em casa? Conta lá!
− Nã senhora. Vem o mê ti João, por mor da venda duns pinheros…
− Tá alguém doente lá na cidade?
− É pó enxoval da nha prima Luísa, que casa cá na terra, nas festas da Senhora do Monte.
− Boa nova essa, rapaz! Já era tempo. Anda cá. Abre essa tulha e tira o açúcar que precisares.
− É só uma chícara. A nha mãe esqueceu-se, quando foi à loja do ti Manel aviar-se pá vinda do mê tio.
− Olha, vem mais eu à horta. Leva aqui umas couvinhas tronchudas p’ ajudar ao caldo.
− A nha mãe manda dizer pa passar lá por casa amanhã, depois da missa. Venha comer mais a gente, co mê tio há de gostar de a ver. A sua bênção, madrinha!
− Vai com Deus, rapaz. E diz à tu mãe c’ amanhã lá estarei.

− Ó avô, não havia supermercado na aldeia?
− Não, Clarinha. Cada um tinha a sua horta, os seus animais que davam os ovos, a carne, o leite; do leite fazia-se o queijo, a manteiga; nalgumas ocasiões especiais matava-se uma galinha, um coelho, conforme.
− E iam a casa uns dos outros buscar o que faltava?
− Era assim mesmo. “Hoje por uns, amanhã pelos outros”, nunca me ouviste dizer isto, filha?
− E aqui no prédio, também fazes isso?
− Não filha. Na cidade grande perdeu-se o hábito dessa ajuda. Até parece mal.
− Mas vocês conhecem os vizinhos. O prédio nem é muito grande.
− Pois não, filha, mas cinco andares é muita gente. Damo-nos bem, conversamos; agora jogo com alguns vizinhos ali, nos bancos do jardim. Se há algum problema de saúde, também nos apoiamos, quando sabemos. Mas há pessoas que não gostam de conviver, nem de conversar. Tenho saudades dos meus tempos antigos, na terra.
− Mas isto aqui é uma aldeia, é o que diz a mamã. Lá no nosso prédio somos tantos que nem nos conhecemos. Nunca posso ir para a rua, porque é perigoso. Só tenho os meus amigos da escola. E há meninos que, mesmo no elevador, quando estão a ir para casa, me tiram a língua de fora, dão beliscões e os pais não dizem nada.
− E a tua mãe, filha?
− Cumprimenta toda a gente, mesmo os que não respondem. Diz que é para os ensinar. E obriga-me a ser bem-educada, até com esses embirrentos…
− É assim mesmo, filha. A tua mãe ainda aprendeu muito nas férias, lá na aldeia, e aqui no bairro também.
− Era bom que todos nos conhecêssemos, ajudássemos e nos déssemos bem, como na tua terra, não era avô?
− Pois era filha! Talvez um dia, quem sabe…

Publicado na rubrica Familiarmente do Jornal Voz da Verdade de 12 de Janeiro de 2014

 

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